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AO CHIFRE DE OURO

Atendendo a pedidos e com o honroso patrocínio da Casa de Carnes
“Se Apertar A Picanha, Eu Mordisco a Maminha”, a Churrascaria
apresenta sua entrada da semana. Aí vai a pecinha, sem vergonha.
Apreciem com moderação.

Achei muito lento, infelizmente não vai dar, Samuca.

Lento como?

Lento, lento… Sem movimento, as pessoas não gostam de ler coisas
assim.

Mas é um conto, não é um filme.

Hoje em dia tudo é filme, entendeu? Desde que inventaram os
“efeitos especiais” ninguém mais quer saber dessa coisa parada,
entediante.

Entediante? Entendo, acho que entendo

Leva pra casa, dá uma revisada, muda algumas coisas

Tipo o quê?

Por exemplo, essa parte que o cara beija a mulher do amigo.

Que que tem? Acha que ficou muito forte?

Mas que forte? Em que mundo você vive? Acho que ficou foi fraco
Só dizer que o cara a beijou “dos pés à cabeça” não resolve, entendeu?
Tem que ser mais explícito, as pessoas gostam dos detalhes.

Mas aí não fica meio pornô, dona Selma?

Vamos acabar com esse negócio de “dona”, já te falei… Que coisa
mais chata isso

Tá bom, Selma. Fica ou não fica?

Fico.

Como assim?

Não era isso, Samuca. Onde é que eu tô com a cabeça, menino?

Se não é pra chamar de “dona”, também não é pra falar “menino”.

Tá certo, tem razão. Você perguntou se ficava pornô, não é? Fica
não, Samuca. Mesmo que fique, é o que as pessoas gostam, entendeu?

Entendi, só não sei se vou conseguir ser mais explícito. Não tô
acostumado

Tá se vendo…

O que?

Nada, deixa… Tava pensando alto. Mas, como eu ia dizendo, tem que
ter movimento, agitação, umas pegadinhas talvez.

Tipo as que tem nesses programas de TV?

Por aí…

Gosto não

Então não põe. Pensa em algo mais quente entre o cara e a mulher do
amigo. O amigo descobre e os dois se pegam no tapa, que tal?

Pode ser. Se a senhora acha…

Daqui a pouco vai me chamar de tia, Samuca?

Desculpe, Selma, se você acha…

Quem tem que achar é você, eu só digo que do jeito que está não vai
dar

Pensei que o amigo não devia descobrir a traição, ficava uma coisa
que só quem lesse ia entender, mesmo assim sem ficar totalmente
claro, percebeu?

Percebi, só que não é isso que os leitores querem, Sam. A turma tá
de saco cheio de tanto problema que tem na vida real, problema no
trabalho, problema em casa com a família, problema de grana, cartão
com limite estourado… Se for pra ler alguma coisa tem que servir pra
tirar esses problemas da cabeça, não pra por mais alguns, concorda?

Pra isso tem o cinema, o teatro, a TV. Literatura é diferente, tem que
dizer alguma coisa, mesmo que não seja agradável de se ouvir

Por isso que vocês, poetas e escritores, são todos uns mortos de
fome, vivem forçando a barra, querendo enfiar coisas na cabeça dos
outros. Pensa bem nesse teu conto, Samuca. Um cara tá comendo a
mulher do amigo

Não sei se ele tá comendo, você é que tá dizendo.

Ah, não? Se não está é porque o cara é broxa, broxinha da silva. A
história não começa com o sujeito abrindo a porta do quarto e
encontrando a mulher do amigo deitada na cama, inteiramente nua?

Começa… Mas foi um acidente, entendeu? Talvez ela tenha feito de
propósito, mas o cara não sabe

Ah, vá… Samuca, deixa de ser bobo. Claro que o cara sabe que a
mulher quer dar pra ele. Toda mulher quando quer dar o cara descobre
na hora. Só não descobre se não for do ramo

Como assim?

Broxildo ou boiolildo, entendeu?

Nem uma coisa nem outra

Eu sei, tava mexendo com você. Não te acho nada disso

Ei… A história não é biografia, muito menos autobiografia

Mas que tem umas coisas tuas aí, lá isso tem, fala a verdade

Um pouco.

Voltando, vai refazer?

Não

Então, tá

Você diz que tem que ser como num filme, mas o Saramago…

Ah, lá vem o Saramago de novo. Faz o seguinte, vai pra casa,
escreve uns duzentos romances, ganha o Nobel e depois vem aqui que
eu publico e nós dois ganhamos uma bela grana

Mas não é só isso que importa

Tem mais, Saramago é mais ou menos como Umberto Eco. Todo
mundo compra, mas quase ninguém lê. O Nome da Rosa, por
exemplo, tirando uns intelectuais e os ex-seminaristas que sabem
latim, quem mais leu de verdade?

Eu li. Pulei as partes em latim

Sucesso mesmo foi o filme, com o Sean Connery. Infelizmente, nem
isso aconteceu com Saramago

E ele não tá nem aí. Gostou, ótimo; não gostou, paciência…

Nessa altura do campeonato é só isso mesmo que ele precisa dizer. A
minha posição é que a união perfeita entre talento e sucesso acontece
de cem em cem anos de solidão

Ahahaha… Gostei dessa. Talvez tenha razão, mesmo assim vou
continuar escrevendo do meu jeito. E não esqueça que Cervantes e
Shakespeare foram contemporâneos, os dois morreram no mesmo dia,
23 de abril de 1616, sabia?

Poxa, Samuca… Você leva tudo a sério. Eu não quero te convencer
de nada, muito menos mudar sua história, acho que você escreve bem
demais, só queria que apimentasse um pouco

O problema não é esse, Selma, o que eu não aceito é a ditadura do
realismo, entendeu? Até o cinema já caiu nessa

Como assim?

Você pode ver, é a receita do sucesso, de uns tempos pra cá só dá
comediazinha burguesa estilo Rede Globo, realismo AR-15, favela do
alemão, naturalismo amarelo-manga… Isso tudo no século XXI
Vende bem aqui e é “For Export” também

Paciência, eu te digo, é o que o povo quer

Não é nada. O problema é que ninguém pode querer o que não
conhece. Você já sentiu tesão por um marciano?

Eu?! Senti

Sério?

Por você, revoltadinho

Primeiro, eu não sou marciano

Com essas idéias, até parece

Segundo, não faz assim. Seu Fonseca pode chegar a qualquer
momento.

Fonsequinha tá viajando. Só volta semana que vem. E nós estamos
meio que separados, entendeu?

Terceiro, eu e seu filho somos amigos, amigos de verdade… Não
acho certo

Quê que tem isso? Vem aqui, eu só quero te mostrar como é que teu
personagem devia fazer com a mulher do amigo.

Para… Tô pedindo

Sentiu? Vejo que sim

Tranca a porta, então

Tá tudo trancadinho, menos eu, Selminha natureza viva… Tá
entendendo agora do que é que o povo gosta, Samuquinha, seu bobo?

II –

Um filme é coisa que você passa uma hora e meia, duas horas
assistindo e sai dali com uma sensação qualquer. Pode ser boa, pode
não ser tão boa, mas o filme cumpriu o que prometeu, fazer você
sentir algo depois de duas horas dentro de uma sala escura. Um livro,
um texto literário é diferente, você não passa duas horas com ele e
fim, não é essa a proposta

Ah, não… Vai me dizer que mudou mesmo de pensamento?

Acho que fui convencida pelos seus argumentos, Samuel

Nossa… antes era Samuca pra cá, Samuquinha pra lá… agora é
Samuel? Seco assim?

Não faz assim. Já te pedi, melhor manter o profissionalismo

Por que isso agora, Selminha?

Tô na minha casa, não acho certo. Depois, meu filho e meu marido…

Péra, péra, péra… O filho tá viajando; o marido, encontrei com ele na
garagem lá embaixo. Até acenou pra mim, disse que ia trabalhar.

Pois é, Samuel… Vai que ele volta. Depois, eu e Fonseca estamos
numa fase tão romântica

Ah, é??? Bom, se você não quer, esqueça. Só vim aqui mesmo pra
saber o que achou da nova versão. Gostou? Tá mais picante?

Demais, picante até demais.

Então, quer dizer que tudo bem?

Mais ou menos, Samuel. Vamos ter que fazer uns ajustes.

Pronto. Voltou com a mesma história. Que ajustes, Selminha?

Me chama de dona Selma por enquanto, tá bom?

Ihhh… Tá certo, que ajustes são esses no texto, dona Selma?

Sabe o que é, Samuel, eu e Fonseca conversamos…

Mas o que é isso? Seu Fonseca também entrou pro departamento de
marketing da editora? Isso é quebra de sigilo literário.

Hahaha… Boa essa, desde quando literatura inédita tem sigilo?
Ninguém tá plagiando o texto, ouviu?

Tá bom, o que é que você, a senhora, e seu Fonseca acharam?

Sabe aquela parte que o personagem assedia a esposa do amigo?

Sei, claro… Assedia coisa nenhuma, o cara come a mulher do amigo,
você que me pediu pra colocar isso

Olha os modos, olha os modos… Aí é que está, andamos lendo umas
pesquisas, assistimos a um vídeo sobre as preferências dos leitores.
Não é que esteja ruim, entendeu? Mas tá fora do escopo

Escopo??? Que escopo, Sel… dona Selma?

Já vi que você não entende nada de marketing editorial. O negócio é
o seguinte: não pode ser tão direto, tão, tão, tão…

Porra…

Olha os modos, Samuel. Já falei. O fato é que nesse meio tempo,
decorrido entre aquele primeiro texto que você escreveu e esse agora,
o gosto dos leitores mudou, tá entendendo? A onda agora é
romantismo. Conversa com o Fonsequinha, ele quer te dar umas dicas.

Me explica essa história das pesquisas. O gosto das pessoas mudou
como?

Vou tentar, escuta bem o que eu vou te dizer: as pesquisas mostram
que as mulheres estão lendo muito mais que os homens, ainda mais
nessa área de ficção

Ah… E vai dizer que mulher só gosta de romantismo? Descobriram
isso também?

Claro que não, né? Acontece que as mulheres que interessam à linha
editorial da nossa empresa…

Ihhhh…

Conversa com o Fonseca, ele vai te explicar melhor. Outra coisa, teu
livro ainda não foi recusado oficialmente, entendeu?

Não tô a fim de conversar com seu Fonseca porra nenhuma, Sel…
Acho que vou levar o texto pra outra editora, uma que goste de
sacanagem explícita, tal como você gostava

Samuel, para com isso. Tira a mão, por favor… Como você está
mudado, antes era um menino tão quietinho

E dizer que foi a senhora que me deixou assim

Larga… Mas será…?

Tá bom, vou pra casa escrever o roteiro de um curta, vai se chamar:
“O dia em que Sam se perdeu nas curvas de Sel”.

III –

Seu Fonseca?! O senhor por aqui?

Surpreso?

Não, não… E com uma arma? Pra que isso, seu Fonseca?

Calma, rapaz… É de brinquedo, veja. Vou dar de presente pro meu
sobrinho, ficou com medo?

Não, quê isso… Foi só a surpresa mesmo.

Ah, bom. Você deve saber o que me traz aqui, não é?

Mais ou menos

Mais ou menos? Como mais ou menos?

Mais ou menos, mais ou menos, ué… Mais pra mais do que pra
menos.

Ah, bom… Selma falou consigo?

Falou, dona Selma falou sim.

Então, se falou, você já está sabendo de tudo, rapaz

Tudo o que, seu Fonseca?

Sobre aquele texto que você mandou pra editora, Samuel, onde é que
você tá com a cabeça, rapaz?

Ah… Tem razão, tô meio confuso hoje

Tá confuso hoje e também quando escreveu o texto, não é que esteja
ruim, entendeu? Mas vai ter que mudar umas coisas, vai ter que
mudar…

Vou mudar sim… Vou mudar o quê?

Vamos com calma, não quero parecer dono da verdade

O senhor, seu Fonseca? Logo o senhor?!

Por que “logo eu”?

Nada. É só o modo de falar, o senhor que sempre foi tão, tão, tão…

Entendi, tão educado e gentil, é isso?

Pode ser

Tá certo, mas vou te falar a verdade nua e crua.

Ai, ai, ai…

Não entendo nada de literatura, nem de livros…

Ah, tá… Nem eu, seu Fonseca

Pra te dizer a verdade, não entendo nem gosto. Prefiro filmes,
principalmente aqueles que passam de madrugada…

Ai

Que que foi?

A cotovelada que o senhor me deu nas costelas… Uhhh…

Deixa de frescura, foi só um toquezinho de nada. Mas como eu ia te
dizendo, Sam, posso te chamar de Sam?

Pode, seu Fonseca, chama do que o senhor quiser, mas chega de
toquezinhos iguais a esse, tá bom?

Hahaha… Você é engraçado, rapaz. Devia escrever pra televisão, aí
sim ia ganhar muito dinheiro. Por falar em money, o fato é que tive
que fazer um aporte de capital na editora, entendeu? Se não fizesse, ia
tudo pro buraco

Inclusive a dona Selma…

Como disse?

Nada… esquece, não disse nada

Pois então, não entendo nada de literatura nem de livros, mas quero
meu rico dinheirinho de volta

Por essas e por outras é que está querendo que eu mude o texto?

Na mosca, rapaz

Pode ser mais explícito, seu Fonseca? Leu meu texto todo?

Uns pedaços, achei meio chatinho, entendeu? Não tenho o hábito de
ler, mas sei quando a coisa vende ou não vende

E do jeito que está, não vende?

Vou ser sincero, novamente, consigo: fiz umas pesquisas, andei
sondando, entendeu?

Não

Mostrei o texto para algumas pessoas e perguntei o que elas
achavam. A maioria gostou, mas não a ponto de comprar o livro,
entende? A opinião mais interessante foi de um cara lá da corretora

Que corretora? Que cara?

A corretora é a minha, porra… Vai dizer que não sabe que eu tenho
uma corretora na bolsa de valores?

Sabia não

Pois é, uma home-broker. Esse cara é um sujeito que gosta de ler, já
leu um monte de livros, até esse tal de Saramago ele já leu, por isso
que eu pedi sua opinião

E que nota que ele me deu?

Seis e meio

Seis e meio?!

É… Ele é um cara muito rigoroso, mas disse que você tem futuro

Ainda bem, essa é a parte boa, o meu futuro

O diabo é que eu e Selma estamos na maior contradição.

Ah, é?

Sim, por que a surpresa? Contradição não quer dizer desavença,
rapaz. Contradição é quando o dólar sobe e a bolsa também;
desavença é quando tudo cai… ahahahaha

Boa essa, seu Fonseca, muito boa

Para de puxar meu saco só porque eu sou o novo dono da editora

Pensei que o senhor fosse sócio de dona Selma

No papel, só no papel… Na verdade, quem manda sou eu. Lá em casa
sempre foi assim. Mas, como eu estava lhe dizendo, o problema é que
Selminha gosta de ver as coisas do lado feminista, fica dizendo que
mulher é que lê, que mulher faz isso, faz aquilo…

E faz mesmo…

O quê? Faz o que, rapaz?

Eu sei lá, seu Fonseca… O senhor é que falou que mulher faz isso,
faz aquilo…

Eu tava te explicando o que Selma fala a respeito de literatura, mas
você hoje tá com a cabeça meio fora de órbita, acho melhor voltar
outra hora

Também acho, seu Fonseca. Outra hora é melhor

Antes deixa eu te falar o que o Maylson sugeriu

Maylson? Que Maylson é esse?

O cara da corretora, o tal que já leu até O Empinador de Papagaios.

O Caçador de Pipas?

É, isso aí… O Maylson acha que a tua história tá boa, mas tá meio
chocha. Você deveria colocar uma trama, como ele mesmo disse, “a
vingança do corno”

O que foi? Engasgou, rapaz?

Péra que eu te dou umas porradas nas costas e já desengasga, vem
cá…
-…

Vem cá, porra! Tá com medo de quê?

Pronto… passou, seu Fonseca, me engasguei do nada. Vamos deixar
essa conversa pra outra hora?

Vamos… Mas vai pensando nisso que o Maylson falou: o corno
trama sua vingança sem que a mulher e o amigo desconfiem,
entendeu? Que tal?

Pode ser, seu Fonseca, pode ser…

IV –

Para de coçar a testa, Fonseca. Vem cá, meu amor…

Sei não, sei não…

O que é que você não sabe?

Ainda agora te perguntei se o tal do Samuel, vulgo Samuca, já tinha
terminado o novo livro de autoajuda e se você deu uma olhada nele. E
o que é que você me respondeu, Selminha?

Eu disse que sim, ué… Que já tinha dado uma olhada

Hãhã… O que você disse foi: “Dei sim e que olhada!”

Ah, Fonsequinha, esquece isso. Tô meio confusa hoje.

Tô sabendo… Você confusa aqui, o Samuca confuso lá, e eu no meio
dessa confusão levando chifre

Que chifre, Samuca? Tá louco? Vai ficar com ciúme do pirralho
agora?

Do que é que você me chamou?

De Fonseca, Fonsequinha… Oras.

Hãhã… Não foi não. Do que é que você me chamou, Selminha?

De Carlos Eduardo?

Que Carlos Eduardo é o caralho!

Olha os modos, olha os modos…

Você me chamou de Samuca, Selma… De Samuca!

Foi?

Foi!

Tem certeza?

Tenho!

Tá vendo como você me deixa? É esse teu ciúme doentio. Você
sempre foi assim, Carlos Eduardo Fonseca

Ah, é?! Troca o meu nome pelo do amante e ainda vai colocar a
culpa em mim, sua cachorra!

Olha os modos, olha os modos…

Sua vadia!

Me larga, tá machucando…

Vagabunda… vagabundazinha.

Para, Fonseca… Já pedi

Me chama de novo de Samuca pra ver se eu não te encho de porrada,
safada

Detesto violência, você sabe disso. Tira a mão daí, Fon… Não faz.

Safadinha. Vem cá

Espera, deixa eu trancar a porta

Tranca não, nem precisa se preocupar, Selminha

Como assim? E se chegar alguém?

Pensa que eu ainda tô a fim de alguma coisa contigo? Pode ir tirando
o cavalinho da chuva, ou melhor, a eguinha

Fonseca!

Voltando à vaca fria…

Olha os modos, olha os modos…

Não era de você que eu tava falando, é só uma expressão antiga,
minha avó que gostava de dizer; (imitando a avó): “Voltando à vaca
fria…”

Fala logo que o Samuca tá pra chegar

Você não tira a porra do Samuca da cabeça, não é?

Nossa, Fon, você fala cada coisa. (Em aparte, para a platéia): A porra
do Samuca, ai, ai…

O que foi que você disse?

Nada, nada… Tava divagando, deixa pra lá. O que é que você queria
saber afinal, Fonsequinha?

O livro de autoajuda que o Samuel tava escrevendo, o Maylson já
deu uma lida?

Que Maylson?

O Maylson da Corretora, mas será possível?

Ah, aquele que é teu sócio e que já leu até o tal de Tchecov em
russo?

Em primeiro lugar, Maylson não é meu sócio, trabalha pra mim na
Corretora, entendeu? Em segundo lugar, não sei e não quero saber se
ele leu Tchecov em russo, de russo eu só conheço o Yashin, que foi
goleiro da seleção.

Um russo? Goleiro da seleção?!

Da seleção russa, não é, estúpida?

Ah, tá… Não me chama de “estúpida” que eu não gosto. Você acha
que todo mundo que não entende de futebol é estúpido. Esse tal de
Maylson é a mesma coisa…

O quê??? Com o Maylson, você também…

Pára, Fon… Mas que homem desconfiado. Eu disse que esse tal de
Maylson deve ser a mesma coisa, eu só o conheço de vista

E eu de testa…

Para de coçar a cabeça bem aí na testa, mas que mania… Não sei
direito se o Maylson leu o novo livro do Samuel, parece que deu nota
cinco

Cinco?! Ele tinha dado seis e meio pro outro

Bem que o Samuquinha avisou que autoajuda não é a praia dele.
Gosta mesmo é de ficção. Você que insistiu, dizendo que autoajuda é
que vende, que você precisa do seu capitalzinho de volta, essas coisas
que o senhor fala sem parar, seu Fonseca

Nota cinco, nota cinco… Eu tô é ferrado com vocês

Você? Tá bom… Você só se ferra quando o dólar cai e a bolsa
despenca, não é isso que diz?

Não gosto de perder dinheiro, me dá alergia, fico todo vermelho de
raiva. Aliás, não gosto de perder nada, nada, tá ouvindo?

Você nunca perde, nasceu pra ganhar. Desde pequeno Fonsequinha é
do time dos winners

Devia ter deixado a editora se ferrar. Você que fosse pro cartório,
Selminha

E você ia junto, esqueceu que é meu fiador e sócio na Editora?

Assinei os contratos com a mão esquerda, até o carimbo de
reconhecimento de firma é falso, tudo fake, tudo fake…

O quê??? Você fez isso comigo, Fon?

Fiz, mas depois fiquei com pena e meti aquela grana pra salvar
vocês. Aí é que eu me ferrei de verdade, entendeu?

E o nosso casamento? Também é fake?

Mais ou menos… O casamento é de verdade, mas tem uma cláusula
no contrato que diz que se você entrar numa fria no mundo dos
negócios, sai sem nada, com uma mão na frente, outra atrás,
entendeu?

Agora entendi. Você deve me achar a pior das piores, não é?

Não gosto de julgar ninguém, Selminha. Não tô aqui pra julgar as
pessoas

O problema é que você tá sempre dizendo isso. (Imitando o marido):
“Não gosto de julgar ninguém”, mas acontece que não faz outra coisa
na vida, Fonseca.É assim mesmo, todo mundo julga o tempo todo.
Julga o que é certo, o que é errado; o que devia fazer, o que não devia.
Você, por exemplo, diz que não julga, mas vai ferrando todo mundo,
sem direito de defesa

Vai chorar agora?

Devia… Eu é que vou sair perdendo nessa história: “uma mão na
frente; outra atrás”.

Nada, Selma. Quem mais vai sair perdendo é o Samuel.

Samuel?! Como assim?

Então, começou escrevendo literatura, passou pra autoajuda, se
bobear ainda faço ele escrever um livro só de crítica literária, ele em
parceria com o Maylson, arranjo um patrocínio, umas verbas do
Ministério e pronto, não precisa nem vender.Tá pensando que vida de
artista é moleza? ahahahaha…
(Soa a campainha da porta. Fonseca abre e diz):

Samuel, tava todo mundo te esperando

Bom dia, seu Fonseca. Bom dia, dona Selma

Bom dia, Samuca. Entra, pode entrar… (baixinho para Samuel): Ele
merece.

Não entendi, dona Selma

Esquece, tava só pensando alto. Entra, vai…

E aí, Sam? Já sei que você terminou de escrever o livro. O Maylson
já leu e te deu nota cinco.

Nota cinco, seu Fonseca?! Isso não é justo… Nota cinco?!
(Selma)- Também achei sacanagem, Samuquinha… Mas não se preocupe que
o Fon tá querendo te propor um outro livro, não é, Fonsequinha?
(Fonseca) – Já escreveu crítica literária, Sam?

Crítica literária?

É, critica literária. Mas tem que ser diferente, bem movimentada,
entendeu, Sam? Uma coisa que ninguém fez ainda, Como num filme…

V –

Maylson, é verdade que você anda dizendo por aí que é meu sócio na
Corretora?

Eu, hein, Fonseca… Quem falou que eu quero ser teu sócio?

Outra coisa, Maylson, você anda comendo a minha mulher?

O quê isso, Dr. Fonseca? Como pode pensar uma coisa dessas a meu
respeito?

Deixa de viadagem, comeu ou não comeu? Pode falar, eu não tenho
mais nada com a Selminha.

Bom…

Bom o quê?! Comeu e gostou?

Você não me deixa falar, cara… Puta que o pariu!

Palavrão aqui não, seu Maylson! Essa é uma Corretora de respeito,
porra…

Porra agora não é mais palavrão, Fonseca? É o novo acordo
ortográfico?

Não fode… Fala logo se comeu ou não comeu a Selminha

Não, não comi… Esquece isso e vamos trabalhar. Sabe aquele
fazendeiro de Goiás, rico pra caralho, de setenta e cinco anos?

Sei, quê que tem ele? Vai dizer que morreu?

Mas que morreu… Vai ser trágico assim lá na editora. O que ia te
contar é que eu ofereci uns titulos do tesouro direto, longo prazo, os
melhores rendimentos da praça.

Aqueles títulos de cinquenta anos?

Isso mesmo… Sabe o que o cara respondeu? “Meu filho, eu tô com
setenta e cinco anos, casado com uma menina de vinte, daqui a
cinquenta anos vou ter 125. O que é que um cara de 125 anos vai fazer
com um título? Só se for o título de investidor mais velho da bolsa”,
disse isso e caiu na risada.

Hahahaha… Foi boa mesmo. E essa menina que é casada com ele?
(Maylson)- Quê que tem ela? Você não conhece.
(Fonseca)- O casal se dá bem?

Sei lá, Fonseca… Uma vez ela me disse que o velhinho tem
ejaculação precoce, pode? Tem uma prótese e ejaculação precoce.

Porra, Maylson… Você também tá comendo a mulher do cliente?
Além de cornear o chefe, ainda por cima espera o velhinho pegar no
sono, vai lá e créu na menina?

Mas que sono? Quem falou em sono?

É com ele acordado mesmo? Pouca vergonha…

Fonseca, você tá com idéia fixa, cara… Desde que teve uns
problemas com a Selmi…, com a dona Selma você só pensa nisso.

Mudando de assunto, o que achou do novo livro do Samuel?

Gostei, dei nota cinco

Porra, você gosta e dá cinco?! Sabia que ele também tá papando a
Selma? Aquela lá eu acho que metade da cidade já comeu

Sério? Tá falando sério, Fonseca? Aquele filhozinho da puta… Deixa
estar que vou dar nota quatro pra ele; quatro não, três; três não…

Ôwww… Pó parar, seu Maylson. Você é o amante e amante não
sente ciúmes, entendeu? Só quem pode sentir ciúmes é o maridão, o
supercorno Fonsequinha

Tem razão… Desculpe, meu amigo. Mas você também não é nenhum
santinho
Maylson sai da sala repetindo “Santinho, ninguém é… Santinho,
ninguém é…”. Fonseca aperta a tecla do vivavoz no pabx e fala,
autoritário:

Dona Cris, liga para aquele nosso investidor, o tal que tem setenta e
cinco anos e uma esposa de 20, como é mesmo o nome deles? Ah, tá…
dr. Leôncio e dra. Joice… O quê, dona Cris? Joyce com “Y”? O que é
que isso tem a ver, porra? Desculpe o “porra”, é que eu ando meio
nervoso, sabe? Como sabe? Sabe o quê? A senhora também já sabe,
dona Cris? Hã? Nada, deixa pra lá. Liga pro Leôncio e marca uma
reunião pra hoje, aqui na Corretora, no final do expediente. Avisa que
é imprescindivel a presença da Joyce com “Y”, imprescindível, tá
escutando?. O motivo? Que motivo? Inventa qualquer coisa, diz que é
pra assinar uns papéis, dona Joyce, desculpe, dona Cris…
Fonseca esfrega as mãozinhas gordas e diz:

É hoje, é hoje…

VI –

Maylson, tua mulher me ligou.

A Terezinha?

Ela mesma, a Terezinha. Ao que eu saiba, ela é a tua mulher, a não
ser…

O que ela queria comigo?

Não é com você, Maylson. Eu disse: “A tua mulher ME ligou”,
entendeu agora?

Sei, a Terezinha te ligou, o que é que ela quer contigo, Fonseca?

Transar

O QUÊ?!

Isso mesmo que você ouviu, a Terezinha, tua mulher, quer transar
comigo

Porra, Fonseca… Não fode..

Acho que não vou mesmo, não que a Terezinha seja de se jogar fora,
não é isso, mas…

Você quer que eu te encha de porrada, Fonseca?

Experimenta pra ver… Olha bem o tamanho das minhas mãos,
Maylson

Tá certo, vamos resolver isso como duas pessoas amigas e
inteligentes

Melhor assim.

Melhor assim

Foi o que eu disse, Maylson. A Terezinha quer transar comigo, mas
eu não posso, entendeu? Ela descobriu que você é o maior comedor da
Bolsa de Valores. Descobriu que você anda traçando a Selminha faz
tempo, daí veio com essa proposta indecente, mas eu não posso

Posso saber por que não pode, Fonseca? Você mesmo disse que a
Terezinha não é de se jogar fora

E não é mesmo, Maylson. Mas acontece que eu já tenho a dona
Cris…

O QUÊ???? Você também tá comendo a dona Cris, a nossa
secretária, recepcionista, consultora, coisa e tal? Porra, Fonseca!

Eu também por que, Maylson? Vai dizer que você…

Não posso negar, já dei as minhas beliscadas

Puta-que-o-pariu… Isso aqui tá parecendo um prostíbulo e não uma
Corretora de respeito, todo mundo come todo mundo

Não é bem assim, não é bem assim…

Vou pedir pro Samuca escrever o roteiro de um filme. Vai se chamar
“Mulheres em Ação”, patrocínio cultural: Fonseca & Corretores Associados Ltda.

Não me fale naquele pivete indecente… Vamos rememorar:
Terezinha descobriu que eu créu na Selma, ficou puta da vida e
resolveu se vingar, é isso?

Batata

Que batata?

É o modo de falar, antigamente, as pessoas falavam “batata” quando
queriam dizer “perfeito”, entendeu?

Perfeito… Mas me diz uma coisa, por que com você, Fonseca? Por
que a Terezinha quis se vingar de mim transando com você? Logo
com você…?

Por que logo comigo? Acha que eu não tô à altura do mercado? É
isso? Pensa que eu fechei meu capital?

Não é isso, é que…

Fala, Maylson. É o que?

É que um cara como você, na sua idade, gordo, careca, barrigudo,
nem dinheiro tem mais, pelo menos não muito… Apesar de tudo isso,
anda comendo a dona Cris, a Joyce com “Y” e quase deglutiu a
Terezinha… Sem falar na Dona Sel…

Quase a Terezinha por quê?

Você que disse que não vai comer, vai ou não vai?

Não sei ainda, pode ser que sim, pode ser que não…
(Maylson anda pela sala repetindo):

Isso é que é amizade, isso é que é amizade…

Vamos ou não vamos produzir “Mulheres em Ação”? Dá pra ganhar
dinheiro?

Hoje em dia ganhar dinheiro com cinema é a coisa mais fácil do
mundo, nego filma até a vida do presidente e as salas lotam

É, mas tem que ter financiamento, as empreiteiras…

Faz o seguinte: abre uma sexy-shop, transforma em S.A., faz o IPO e
com o capital financia a campanha para a reeleição da…

Ô, pode parar, seu Maylson. Política aqui, não

Então produz logo um remake de pornochanchada, melhor ainda,
algo que lembre uma peça do teatro de revistas.

Acha que dá pra ganhar uma grana?

Não sei, mas dá pra comer do bom e do melhor, isso dá

Só filé mignon. Jantamos todos no Chifre de Ouro

FOTONOVELA: FERRO NA BONECA

FERRO NA BONECA

Autor: Fernando L N de Souza (Fn)
@atebrreve

Março / 2004

PRIMEIRA PARTE

UM

Dr. Leme disse a ela algo mais ou menos assim: “Você esquece que é menor, dimenor como gostam de falar. Se alguém estiver atrás de um culpado, não é você que vai pagar o pato.” Mesmo assim ela continuou exibindo os dentinhos mais brancos que ele jamais vira em toda sua vida. Jurou que era maior de idade. Chegou a mostrar de relance um documento. Depois pulou para o seu colo, na frente de todo mundo.

Se ele ficou sem jeito? Imagina… Fátima passava a mão no rosto de Dr. Leme e sorria para a sua falta de graça. O bar estava cheio nessa hora. Alguns olhavam – uma menina tão novinha, um cara já maduro. Jardel, o mendigo que pedia de mesa em mesa uma “ajuda simbólica”, ensaiou umas palmas e logo estavam todos aplaudindo, assoviando… não tinha mais como disfarçar. Nem sabia onde enfiar a cara.

DOIS

Passaram uns quatro, cinco dias sem se ver. Dr. Leme ficou meio puto da vida porque achava total falta de consideração. Sua criada, uma negrinha que o atormentava há mais de vinte anos, foi cruel: “Falta de consideração é o caralho! Você tá é com saudades da menina. Tá com saudades das safadezas que ela deve ter feito com você.” Dr. Leme preferiu não discutir: “Esses negócios que envolvem ciúmes e amores desprezados não raro terminam em tragédias…” Ajeitou o pijama na frente do espelho. Orgulhoso, sorriu para dentro como se estivesse no Tribunal do Júri.

TRÊS

Fátima apareceu de óculos escuros, cabelos presos. Ele estava de saída. Deu umas ordens, só por dar. Como a maledicência não conhece limites,todos no escritório achavam que Dr. Leme tinha muito o que fazer naquele final de tarde.

QUATRO

Não era bem assim. Fátima e Dr. Leme ainda não se conheciam por inteiro. Foram passear na beira da praia. As gaivotas mergulhavam e os dois quase ouviam os gritos dos peixes. Dr. Leme perguntou o que acontecera e Fátima chorou. Tirou os óculos, esfregou o olho roxo e disse um “não foi nada…”, virando os olhinhos, como poucas atrizes conseguem na tela. Dr. Leme segurou sua mãozinha e esteve a ponto de oferecer a casa como refúgio, mas lembrou de alguns problemas que iria enfrentar. Sugeriu que passassem a noite no hotel familiar que ele conhecera há pouco tempo. A menina soltou uma gargalhada que desnorteou o advogado.

CINCO

Fátima não media atitudes, era ambiciosa e falava o que lhe vinha à cabeça. Mas quem não é assim aos “sei-lá-quantos-aninhos”? Para tudo e para todos Dr. Leme tinha uma desculpa na ponta da língua. Quando a conversa era sobre Fátima e sua inconstância, ou inconsistência – como queriam alguns de seus velhos amigos –, os olhos da velha raposa brilhavam, assim como a saliva no canto da boca.

SEIS

Tanto insistiu que acabou convencendo a menina a entrar pela primeira vez na vida em um teatro. Era uma comédia, estrelada por atores da TV, tendo à frente um louro, dizem que fresco e debochado. Fátima só foi por causa dele.

Sentaram-se no balcão, literalmente às moscas. Não havia ninguém: nem à frente, nem atrás, nem de um lado, nem de outro. Parecia o paraíso depois do pecado original.

SETE

Dr. Leme segurou a mão de Fátima e beijou-a suavemente. Quando todas as luzes se apagaram, Dr. Leme se achou romântico, como há séculos não ficava. Esqueceu sua voz de barítono, de tantos e tantos plenários e anfiteatros, olvidou sua condição de membro titular do conselho de direitos humanos, desprezou a carteirinha da OAB, execrou os vaticínios de sua criada ciumenta e soltou um sonoro: “Faz um boquetezinho, amor?”

Saiu tão alto que atores e atrizes arregalaram os olhos, ficaram um minuto em silêncio reverencial e depois começaram a rir convulsivamente, interrompendo a peça. O tal louro debochado e rico deitou no assoalho sujo do palco, gargalhava mais alto do que todos os demais, sacudia os braços e as pernas como se estivesse tendo um ataque. Parece mentira, mas em seguida acenderam-se todas as luzes da platéia e, apesar da balbúrdia, lá estava a cabeça de Fátima deitada no colo de Dr. Leme, empenhando-se a fundo na arte de sugar certos favores.

OITO

No intervalo do primeiro para o segundo ato, ouviu não sabe quantos “Sem vergonha!”, “Canalha!”, “Pior que ele é a menina com essa carinha de santa…”. Três mulheres olharam friamente para o casal, que continuava de mãos dadas. A mais velha se espantou: “Olha se não é o ex-marido de Izilda…?”. As outras queriam saber que Izilda era aquela. A mulher explicou, espetando dois alfinetes negros nos olhos de Dr. Leme: “A Zildinha, aquela que morreu de desgosto faz uns dois ou três anos. Ele a deixou para viver com a empregada! Cafajeste!”

NOVE

Como de costume, Dr. Leme compareceu à faculdade de direito na manhã seguinte. Abriu seu fichário e a boca acompanhou esse movimento para dar um tonitruante “boa dia a todos…”, mas lá do meio da sala uma jovem estudante interrompeu o ritual, perguntando o mais alto que sua voz alcançava: “Professor, é verdade que Sócrates teve que se matar por ser acusado de corromper a juventude ateniense?” Ia responder, mas algum engraçadinho colocou no último volume aquela marchinha de carnaval, que falava em chupeta e em mamar… “Mamãe eu quero…”, qualquer coisa assim.

DEZ

Não demorou vinte e quatro horas e a sórdida campanha que armaram contra Dr. Leme ganhou as ruas. Os muros da faculdade amanheceram pichados: “Cicuta nele!” era o comando. O Conselho Universitário a muito custo convenceu o emérito professor-doutor Leme a pedir afastamento, antes que a situação se agravasse. Havia, no entanto, uma ponta de orgulho por ter sido comparado ao sábio filósofo grego: “Antes morrer como Sócrates do que viver como Xantipa”. Soltou essa frase quando pisava as escadarias de mármore da secular e inadimplente faculdade.

Mas o pior ainda estava por vir. Fátima fora conduzida à delegacia de proteção ao menor e Dr. Leme recebera intimação para prestar esclarecimentos. As acusações? Atentado violento ao pudor, corrupção de menores, pedofilia… para dizer o mínimo.

ONZE

O delegado Otaviano era apaixonado por Nélson Rodrigues. Dizia para quem quisesse ouvir que qualquer escritor brasileiro, vivo ou morto, diante de Nélson, não passava de um cachorro vira-lata: ”Sarnento, entendeu? Vira-latas, sarnentos, invejosos…Todos eles! Sem exceção!”

Dr. Leme achou que também já estava sentindo aquele velho e brasileiríssimo complexo, mas o delegado se interessou pela estória com evidente morbidez. Quis saber se a menina era virgem, se Dr. Leme chegara ao orgasmo durante o sexo oral no teatro… Falava baixinho,

os lábios quase colados ao ouvido de Dr. Leme, que nessa hora imprópria sentiu cócegas e caiu na gargalhada.

DOZE

O homem virou bicho, achou aquilo uma falta de respeito. Xingou Dr. Leme: “Imoral! Tarado! O quê que você tá pensando, seu pederasta de merda?!”, e resolveu dar umas porradas no venerando causídico. Apavorado, Dr. Leme olha para cima, vê o braço peludo e a mão gorda do delegado descendo em sua direção. Era inevitável: em poucos segundos o rosto de Dr. Leme deveria estar inchado, os olhos roxos, o nariz sangrando, os lábios murmurando um falso arrependimento…

TREZE

É nesse instante que entra em cena a figura esdrúxula de um escrivão franzino, calvo desde os quinze anos, nariz e olhos de águia, o indefectível Zé da Pena… Sua mão ossuda agarra no ar o braço do delegado e aconselha: “Calma, Otaviano… Os tempos são outros, os tempos são outros…” O delegado bufa, grita palavrões assustadores, diz que vai trazer um leão de circo pra comer os presos… Mas acaba recuando. Considerava o escrivão um sujeito falso, hipócrita, desprezível: “Escuta, Zé, você é um medroso, um cagão…! Um cagão, está me ouvindo?”, dizia e repetia com ódio, soltando fogo pelas ventas nos corredores da delegacia.

Contudo, reconhece no escrivão um personagem – perfeito, bem-lapidado – de seu ídolo maior. E isso tirava o delegado do sério.

Vai daí que o rosto de Dr. Leme não virou uma pasta de carne e sangue, seu nariz não foi nem um pouco quebrado, os olhos continuaram com as mesmas olheiras que Deus lhe deu – e só com elas. Apenas seus lábios murmuram o tal arrependimento, falso como a postura humilde de monge tibetano, que o advogado agora tenta empurrar para a seleta platéia.

QUATORZE

Não muito longe dali, Fátima diz que não está acostumada com essa vida de detenta e que não fez nada pra passar a noite na Febem. Está presa numa cela úmida, um cubículo malcheiroso a bem dizer… As outras meninas riem e caçoam dela. Mediante alguns favores, consegue mandar um bilhete para o mendigo Jardel, pedinte oficial daquele bar em que Fátima e Dr. Leme iniciaram sua desditosa aventura.

QUINZE

Graças a um habeas corpus, concedido durante a madrugada por um desembargador amigo, famoso no mundo do crime, Dr. Leme foi libertado sem ao menos prestar depoimento. Saiu dali direto pra casa. Estava louco por um banho de banheira para em seguida se atirar na cama, não sem antes pedir à sua negrinha, companheira e amiga de tantos anos, um chazinho de hortelã e, quem sabe, umas bolachas de mel. “Bolacha, você vai levar é nessa cara, seu filho da puta!”, disse a negrinha sem dar ouvido às súplicas de Dr. Leme. Tentou ficar quieto e não responder, mas a carência falou mais: “Vem cá, vem… Tá com ciúmes do Lelé, tá?”

DEZESSEIS

Pra quê?! A negrinha subiu a serra: “Ciúmes de você, sua galinha velha?! Fique sabendo que eu já contratei um advogado, é aquele mesmo que te odeia e vive te perseguindo. Ele vai entrar com um processo e provar que você vive maritalmente comigo há mais de vinte e cinco anos. Tudo o que você tiver, eu levo a metade, tá ouvindo?”

Dr. Leme arregalou os olhos, mas não se deu por vencido: “Metade de tudo o que eu tenho? Essa é boa… Sou dono de um escritório falido, uma casa hipotecada que tá na mão do banco e uma cátedra na faculdade de direito…”

A negrinha se mostrou esperta e decidida: “A casa e o escritório, você que fique com as dívidas… Agora, eu quero a metade dessa cátedra! E, data venia, eu não me chamo Eunice se não deixar você com uma mão na frente e outra atrás.”

Dessa vez, Dr. Leme aguentou firme: não riu nem disse nada. Ficou apenas pensando: ”Gozado, depois de trinta anos juro que não sabia que o nome dela era Eunice…”

DEZESSETE

Desmaiou de cansaço, sem bolacha, nem chazinho, nem suco de maracujá pra acalmar os nervos. Sonhou que Fátima estava se afogando e não tinha onde se segurar. Ele nada em sua direção e a duras penas consegue salvá-la. Na praia, a menina está deitada na areia, de boca aberta, , inconsciente. Ele olha aquilo e não resiste: dessa vez, toma a iniciativa e com todo o cuidado repete a cena do teatro: introduz o sexo na cavidade bucal da menina. De repente, a garota leva um susto e acorda. Cerra os dentes com força. Dr. Leme grita como um desesperado, tudo isso no sonho. Acorda aos berros: “Lá se foi a cabecinha, lá se foi a cabecinha…” Abre os olhos e a seu lado a negra Eunice avisa que tem alguém batendo na janela: “Parece um mendigo…”

DEZOITO

Dr. Leme ficou na dúvida se devia ou não mandar Jardel entrar em sua casa. Tá certo que o pobre homem trazia notícias de Fátima, mas, que diabos, era um mendigo! Resolveu atendê-lo no portão, de robe e chinelinho de pompom. Jardel achou normal, porque não costumava entrar na casa das pessoas a quem pedia uma “ajuda simbólica”. Entregou para Dr. Leme um pedaço de papel amassado, onde Fátima tinha escrito com sua letra de princesinha mimada: “ESTOU NA FEBEM. VENHA ME TIRAR DAQUI IMEDIATAMENTE OU EU NUNCA MAIS OLHO NA SUA CARA”

DEZENOVE

Jardel se despediu solene, levando a ajudinha e dizendo: “Conte com a minha discrição, doutor. Minha boca é um túmulo…”

Dr. Leme estava pronto pra sair rumo à Febem quando o telefone tocou. Era a tal velha amiga da falecida Izilda, que o insultara no teatro. “Lembra de mim, seu cachorro? Sou a Helenice, amiga da sua mulher. Você não me engana, vive maritalmente com essa menina de cor há mais de 25 anos. Não é de hoje que você é um peidófilo safado”, disse ela aos berros. Dr. Leme não estava a fim de arranjar novos inimigos gratuitos, mas dessa vez não se conteve: “Você é que é peidófila, sua porca! Sempre foi, então não me lembro?” Eunice ria de dobrar.

VINTE

Dr. Leme entrou na Febem meio puto da vida. Deu de cara com um sujeito que se dizia responsável pela triagem. Sôfrego, ele agarrou a carteirinha da OAB de Dr. Leme, como se fosse um cartão de banco. Quando viu que não era, cuspiu na escarradeira, que vinha a ser a lata de lixo, a única nas redondezas, por incrível que pareça, e perguntou o que é que o doutor queria. Dr. Leme meteu o dedo indicador no peito do cara e começou a vomitar aquele batido: “Sabe com quem está…?” Mas nessa hora a sirene tocou e veio a informação: uma menina de nome Fátima liderava a rebelião, a quadragésima-nona nos últimos vinte e dois dias. Dr. Leme fez a conta de cabeça. Gostava de matemática desde pequeno.

VINTE E UM

Um exagero, sem dúvida: 2,227 rebeliões por dia! Não era possível… Estava pronto pra reclamar, entrar com uma petição exigindo recontagem, quando, infelizmente, chegou a imprensa.

Tiraram umas fotos da fachada, o câmera enquadrou a portaria, depois meteram o microfone na cara do funcionário, perguntando que Fátima era aquela. Aí um repórter cutucou a estagiária e apontou com os beiços para Dr. Leme. Na mesma hora todos ligaram o nome à pessoa: “É o Dr. Leme?! Aquele do boquete em público?”

VINTE E DOIS

Nessas horas, um sujeito experiente, com mais de não-sei-quantos-anos de banca, acostumado com as piores rasteiras que o mundo jurídico pode aprontar, um sujeito que já escorregou em mil-e-uma cascas de banana, e depois se levantou incólume, que já passou por cima de corpos, de sentimentos e arrependimentos , um sujeito com toda essa folha corrida, melhor dizendo, com essa puta vida pregressa, currículo invejável, nessas horas é que o camarada sai do sério: “Velho depravado é teu pai, sua filha da …!”, nem chegou a completar a frase e partiu pra cima da estagiária, que tentou se esconder atrás do fotógrafo, que tropeçou nas pernas do funcionário, que por sua vez distribuiu porrada pra tudo que é lado, só pra pôr ordem no galinheiro. O barraco estava armado e Dr. Leme, como se dizia antigamente, passou recibo.

VINTE E TRÊS

O chefe dos inspetores chegou de maca: um olho roxo, a cabeça enfaixada, os braços caídos e um ar de quem acaba de ser pisoteado na plataforma da Central, às seis da tarde de uma sexta-feira pré-carnavalesca. Mesmo assim ainda teve forças para virar ligeiramente a cabeça na direção de Dr. Leme e perguntar: “Não é o cara da chupetinha?”

A situação lá dentro estava séria, fugindo do controle. Fátima era a nova líder. Na hora que resolveu rodar a baiana não teve uma interna que não a acompanhasse. Parecia uma daquelas revolucionárias do Século XIX, mas, na verdade, só não queria dormir com pulgas, baratas e muquiranas de todos os tipos. Porque Fátima podia ser tudo, gente, mas era uma menina limpinha, isso ninguém pode negar.

VINTE E QUATRO

Chamaram a polícia e adivinha quem chegou… Ele mesmo, o delegado Otaviano, seguido de perto por seu fiel escrivão – o falso, o ossudo, o dissimulado Zé da Pena.

A estagiária correu na direção dos dois. Apontava para Dr. Leme e em prantos berrava: “Tentou me agarrar… Tentou me agarrar na frente de todo mundo!”

“O senhor por aqui, Dr. Leme? Não perdeu a mania de avançar em pobres meninas virgens?” – disse Otaviano.

Aí foi uma gargalhada geral. Riu o chefe da triagem, gargalhou o repórter, o fotógrafo quase teve um troço… Até o inspetor deitado na maca pedia: “Parem com isso, pelo amor de Deus… Só dói quando eu rio…”

A estagiária, que se chamava Vanessa Mendes, ficou meio sem graça, mas logo arranjou um jeitinho de se aproximar do delegado e falar no seu ouvido: “Virgem também não… né, Tavinho?”

VINTE E CINCO

Na hora de eleger uma comissão para dialogar com as autoridades, Fátima declinou do convite: “Já estou cansada de tanta bagunça… Eu quero é ir embora daqui.”

A decepção foi geral, mas Fátima tinha carisma e dominava a plebe ignara. Escolheu ela mesma três meninas que já estavam naquela faixa cinzenta, “dimenor” pra maior de idade, e deu as instruções:

Retirar a tropa de choque

Substituir os inspetores

Comprar colchões novos e um spray de inseticida por ala

E, finalmente, liberdade para Fátima!

A maioria esmagadora preferia trocar o inseticida por café com leite, mas Fátima se recusou a colocar em votação, dizendo: “Tá pensando que isso aqui é o quê? Câmara de Vereadores?! Não tem votação porra nenhuma. Vai lá e tá acabado…”

VINTE E SEIS

Foram. A tropa de choque topou recuar, o administrador prometeu comprar os colchões e os inseticidas, além de trocar os inspetores em cargo de chefia e estudar o pedido da líder.

Quando voltaram com a notícia, a alegria foi geral. Carregaram a pequena Fátima nos ombros, pularam, dançaram, fizeram um esporro daqueles noite adentro e, só pra não perder o hábito, saquearam a despensa. Como diria a madre superiora, a turminha é foda!

VINTE E SETE

Tinha mais gente no portão da Febem do que dinheiro em bolso de turista americano. A maioria era de curiosos, gente do bairro que ensaiava um coro: “Sossego ninguém tem! Fora com a Febem!”

Delegado Otaviano olhou para o cinegrafista da TV, seu velho companheiro de porres inenarráveis e mandou: “Mas que caralho é esse, Matias? Vão fazer uma passeata?”

“O doutor ainda não viu nada… – disse uma funcionária de uns centro e trinta e cinco quilos em cada perna – Quando eles se emputecem pra valer dão tiro pro alto, jogam bicho morto aqui pra dentro… Só vendo…Terça passada jogaram um urubu morto, enrolado na camisa do Flamengo.”

“É crime ecológico – gritou o delegado – Traz a tropa de volta!” Dr. Leme não se conteve e gritou um “não!” tão alto que Otaviano interpretou no mau sentido. Agarrou Dr. Leme pelo colarinho e quis saber se ele achava que mandava alguma coisa na porra daquela zona. Esteve a ponto de enfiar outra vez a mão na cara do advogado, quando Zé da Pena novamente apaziguou: “Calma, Otaviano… O fotógrafo tá tirando umas fotos e a estagiária tá de gravador em punho. Vão te prejudicar, vão te prejudicar…”

VINTE E OITO

A tropa de choque não veio, mas o tenente Maia, comandante do batalhão da PM, saiu de cassetete em punho, no meio da multidão, distribuindo a gente sabe o quê. Matias, o cinegrafista, gravou tudo, chegou a pedir para o tenente repetir uma cena que tava meio tremida, no que foi prontamente atendido, tendo em vista o prestígio do canal em que Matias trabalhava.

VINTE E NOVE

Finalmente, depois de marchas e contra-marchas, a paz voltou a reinar naquela unidade da Febem, mais conhecida como “ferro na boneca”. A rebelião se desgastara como notícia, cansando leitores e espectadores, ninguém havia morrido ou se ferido gravemente, de modo que os jornalistas já tinham partido pra outra.

Trouxeram Fátima algemada e a entregaram nas mãos do delegado Otaviano, que a recebeu com um sorriso e uma interrogação: “Essa aí é mesmo a tal da Fátima? A vítima? A garotinha indefesa?”

Diante da afirmativa, emendou: “Mas a menina é uma baita de uma mulher, sô…Gostosa!” E passou-lhe a mão na bunda.

TRINTA

Otaviano insistiu em levar Fátima até a delegacia. Dr. Leme, que não estava disposto a perder a menina para um tira de quinta categoria, exigiu ir junto no camburão. Nessa hora, o enigmático Zé da Pena soltou mais uma de suas considerações filosóficas: “Acho que é a primeira vez que um advogado de renome exige um camburão para ir à delegacia…”

TRINTA E UM

Otaviano tentou atrasar o lado de Dr. Leme, e este tentou empatar a foda de Otaviano. Foi briga de cachorro grande, como diria o mendigo Jardel. Fátima mais parecia árbitro de partida de tênis: ora olhava para um lado; ora para o outro. Piscava os olhinhos e suspirava, estava nas nuvens.

Depois de muito rosnar, Otaviano disse a Dr. Leme: “Escuta, você está livre para fazer o que quiser da porra da sua vida, mas deixe a guria comigo ou eu acabo metendo uma bala bem no meio dos seus testículos.”

Ato contínuo, Dr. Leme, que de trouxa não tinha nada, começou a berrar, ficou vermelho e berrava, com uma vozinha fina que Fátima jamais ouvira: “Peninha, Peninha… Socorro! Este homem está querendo me matar…!”

Peninha, que vinha a ser o digno escrivão Zé da Pena, não gostou da intimidade. Encarou Dr. Leme e disse baixinho: “Seja homem, sujeito! Não vê que até a menina tá te olhando torto?”

E estava. Tanto estava que Fátima não demorou a se engraçar pro lado de Otaviano, passando a mão no seu rosto e dizendo que não era mais “dimenor”, perguntando se ele queria ver seus documentos ou se o delegado é que estava pretendendo mostrar os dele, e riu Kkkkkkk…

O escrivão não perdoou. Olhou duro nos olhos de Dr. Leme e disse: “Tá vendo só?”

Dr. Leme, que de liberal não tinha nada, chegou bem perto da menina Fátima e disse, com sotaque de italiano da novela das oito: “Ma che? Tu sei una putana?”

Só ele falava a sério. O resto caiu na gargalhada.

Otaviano deu um berro chamando o carcereiro. Adivinha quem apareceu na sala, cheio de mesuras e salamaleques. Ele mesmo, Jardel, o falso mendigo. Só que agora não pediu nenhuma ajudinha simbólica: era um tira, o filho da puta!

Todos, inclusive Jardel, olharam para Fátima quando Dr. Leme perguntou se ela já sabia de tudo.

Estava lixando as unhas e nem pensou na resposta, que saiu meio sem querer, uma expressão da moda que não diz nada, mas que as garotas usam e abusam: “Com certeza…”, disse ela, acentuando o “r” mineiro.

FIM DA PRIMEIRA PARTE

FOTONOVELA

SEGUNDA PARTE

UM

Todos se lembram que a grande surpresa foi descobrir que o mendigo Jardel ocupava o cargo de carcereiro na delegacia de Otaviano. Pois bem, o que ainda não foi dito é que a discussão entrou madrugada a dentro. Otaviano, aos berros como sempre, queria saber se Jardel era um mendigo-carcereiro ou um carcereiro-mendigo. Segurou o queixo da sua nova musa, a menina Fátima, e disse: “É uma questão filosófica, tá entendendo, minha putinha? Preciso saber o que é mais importante na vida dele: ser mendigo ou carcereiro da delegacia.”

Fátima nunca entendera nada de filosofia, mas quanto a ser chamada de putinha na frente de todo mundo, isso a deixou fora de si. Pulou no pescoço de Otaviano e agarrou sua gravatinha borboleta. Gritava: “Escutaqui, seu adorador de Nélson Rodrigo, putinha é a sua avó, tá entendendo agora?”

Foi preciso que o escrivão Peninha, ou melhor, o apaziguador Zé da Pena, agarrasse a menina e dissesse no seu lindo ouvidinho juvenil: “Não é Rodrigo, é Rodrigues… Não troca o nome de novo que ele te mata, menina!”

Depois, esse mesmo Zé da Pena, segurou Otaviano pelo braço e disse: “Doutor, esqueceu que Jardel é nosso informante? Informante e não mendigo, entendeu, Otaviano? É de uma fidelidade canina, e além disso conhece todas as meninas daquele bordel que eu te falei…Puteiro é com ele mesmo.”

DOIS

Os dias se passaram sem novidades. Foi aberto um processo contra o famoso causídico Dr. Leme, agora obrigado a desativar momentaneamente seu escritório por falta de clientes corajosos. A menina Fátima foi morar na casa de uma tia, que o delegado Otaviano entendeu ser de confiança.

Dr. Leme ia visitá-la todas as noites, logo depois que o delegado saía. Fátima e sua tia não deixavam que ele passasse da porta da rua. A menina o recebia de camisola transparente e dizia no seu ouvido: “Pensou que ia ser fácil, não é? Tá me achando com cara de putinha também?”

Dr. Leme negava, dizia que pelo amor de Deus não era isso. Aí Fátima segurava a sua mão e a encostava em seus pequenos seios empinadinhos. O advogado ia à loucura, mas nessa hora a menina Fátima corria para dentro e sua tiazinha colocava o corpo na porta, um corpo avantajado sem dúvida, que barrava instinto e desejo, que vinham a ser a mesma coisa, oras…

TRÊS

Isso aconteceu durante uns dois meses seguidos. Religiosamente, todas as noites, Dr. Leme esperava o delegado Otaviano sair e tocava a campainha. Bolinava os seios da pequena Fátima e depois arrancava o resto dos parcos cabelos na frente da tia gorda.

Já estava cansado daquela história. Uma noite saiu dali tão desesperado que entrou no carro, bateu a porta e pôs-se a gritar: “Puta-que-o-pariu! Eu dou minha cara a tapas se esse delegado filho da mãe não tá comendo a putinha. Ele come e eu só passo a mão nos peitinhos!”

Socou o volante, deu mais uns gritinhos ridículos e logo em seguida sentiu que alguém tocava em seu ombro e dizia: “Muito bonito, não é, Dr. Leme?”

Era o delegado Otaviano em pessoa, ao lado de Jardel e Zé da pena, todos no banco de trás do carro.

“Toca pro distrito”, ordenou Jardel, o ex-mendigo informante. A noite prometia…

QUATRO

“Tá pensando que isso aqui é camburão da polícia?”, disse Dr. Leme, encarando o ex-carcereiro Jardel. “Tem mais…. – continuou, olhando para os três – Um de vocês passa aqui pra frente que eu não sou motorista de tira, porra!”

Zé da Pena achou razoável a reivindicação e lá se foi ele para o banco do carona. Otaviano, que já andava meio puto da vida com aquela sociedade indesejada, aproveitou a oportunidade para esculachar Zé da Pena, seu saco de pancadas de estimação, e atingir Dr. Leme por tabela: “Pusilânime, biltre… Se um dia um rato atravessar na tua frente, vai te olhar com um risinho no canto da boca e é capaz de escarrar no teu pé. Você devia era se chamar Zózimo, o Zózimo da Engraçadinha… Canalha! Devia ser o Zózimo da Pena, aliás, você dá pena, Zé”.

Dr. Leme, que era chegado em jogo de palavras e outros malabarismos verbais e orais, largou o volante e aplaudiu o inimigo. Quase enfiou o carro no poste.

CINCO

O delegado agradeceu todo besta. Parecia um pavão. Afinal, não é todo dia que um homem da lei recebe cumprimentos de um ilustre advogado sob sua custódia…

Quando chegaram à delegacia, chamou Dr. Leme no canto: “Escuta, vamos acabar com essa inimizade boba. Só por causa de uma putinha, uma putinha, tá ouvindo? Não vale as calcinhas que tira…”

Dr. Leme concordou e os dois se abraçaram ali mesmo, na frente de Zé da Pena e de… Mas onde é que foi parar o informante Jardel?

SEIS

É isso mesmo que você está pensando: Jardel, o falso mendigo, era a mais nova vítima a ingressar na extensa lista de apaixonados pela inocente Fátima. Na mesma hora em que deram por sua ausência no Distrito de Otaviano, lá estava ele na porta da garota tocando a campainha e depois dizendo: “Se eles podem, eu também quero: “Tira essa camisola que tá calor, benzinho”.

Jamais passara pela cabeça de Fátima que um mendigo malbarbeado, maltrapilho e malcheiroso, tivesse a audácia de sentir desejos por ela. Logo ele, que pedia esmolas, “ajudas simbólicas”, no bar onde ela se sentara no colo de Dr. Leme, pela primeira vez, aliás, a única na vida. Nesse ponto, suspirou. Vai saber por quê.

“Não se enxerga não, Jardel? Vê lá se eu vou deixar um mendigo como você pôr a mão nos meus peitinhos”, disse ela, com suas caras e bocas de nojo. Sabia ser cruel quando queria.

Imóvel diante de tão segura musa, o máximo que Jardel conseguiu foi soltar um “com certeza”, mais por admiração e reverência do que por escárnio ou ironia.

SETE

Naquela madrugada, Dr. Leme e o delegado Otaviano selaram uma amizade indestrutível. Estavam dispostos a tudo, inclusive a casar uma grana preta pra saber quem comeria primeiro a doce e lânguida Fátima. Quando Jardel voltou, de cabeça baixa e se encostando nas paredes pra não ser notado, os dois apertaram o informante, carcereiro e ex-mendigo. Conversa vai, conversa vem… e o coitado acabou confessando que também estava um pouco a fim da garota, a musa da Febem em pé-de-guerra. Aperta daqui, aperta dali… e o pobre contou que tinha levado um fora daqueles, que saíra da casa humilhado e que por isso estava assim meio sem tesão de tomar conta de preso naquela noite, com certeza…

Otaviano armou o barraco: “Puta-que-o-pariu, Jardel! Até você?! Já pra carceragem, seu traidor do caralho!” Fino, esse Otaviano.

OITO

Eu sei, eu sei… Muita gente ia preferir que Otaviano dissesse: “Senhor Jardel, sinto-me traído. Me apunhalaste pelas costas.” Mas o que é que vamos fazer? Não se pode mudar uma pessoa assim, sem mais nem menos, pela nossa própria vontade. Otaviano é Otaviano, Dr. Leme é Dr. Leme, Jardel é o ex-mendigo, Zé da Pena é o popular Peninha.

Caráter é algo que vem de berço. Ou não?

NOVE

Com o passar do tempo, os antagonismos foram se radicalizando, tal como acontece nas guerras de verdade, sobretudo as mais estúpidas.

Correu pela cidade que uma menina de nome Fátima, de origem humilde e egressa da Febem Ferro na Boneca, tinha o poder da cura. Curava barriga d’água, espinhela caída, hérnia de disco, até dor-de-cotovelo, vê se pode? Claro que era apenas um boato, mas as mulheres, de idades e tipos variados, passaram a frequentar a tal casa, administrada pela tal tia, que tinha sido de confiança do tal delegado. Aliás, a bem da verdade, nem ele, a autoridade em pessoa, conseguia adentrar no bunker de Fátima e suas seguidoras de plantão.

DEZ

Sentindo-se desafiado, Otaviano convoca Dr. Leme, Zé da Pena e o ex-mendigo Jardel para uma incursão devastadora nas hostes inimigas. Os quatro pulam o muro dos fundos e invadem a casa. Jardel se atraca com a encorpada guardiã, enquanto Otaviano agarra a musa virginal, arranca sua camisola transparente, põe a garota deitada de bruços no seu colo e aplica-lhe uma dúzia de palmadas das fortes em seu traseiro. Fátima grita, esperneia, xinga. Mas, para espanto de todos os admiradores machos (e também das fêmeas subjugadas), quando Otaviano pára, ela implora: “Bate mais, paizinho…Bate mais, pelo amor de Deus.”

Dostoievski tremeu no outro lado do outro mundo;o espectro de Nélson arrematou: “É normal…” Dalton saiu de fininho: proibiu fotografias e que tocassem em suas influências.

Grande, extraordinária suspresa teve Dr. Leme ao ver que lá da área de serviço acenava para ele uma negrinha igual à sua Judith – ou será que era Eunice?

DEZ E MEIO

Peço licença a vocês, meus amigos, para abrir um parêntese nesta minha breve narrativa e contar algo que muito me assusta: tenho recebido uns e-mails estranhos, umas ameaças, uns deboches… No início não dei muita bola, mas depois comecei a ficar de fato preocupado.

Confesso que minha primeira desconfiança endereçou-se a ele (vocês sabem de quem estou falando…) Era natural que eu pensasse assim, tendo em vista seu passado truculento, a maneira como costuma intimidar as pessoas e tal e coisa…

Posteriormente, a linguagem empregada caiu em contradição. Vou explicar melhor: era um conteúdo grosseiro revestido com uma capa de delicadeza. Sabe aquelas pílulas coloridas? Pois é… Por fora, são lindas; por dentro, intragáveis. Ou você engole tudo de uma vez ou vomita só de olhar, entenderam?

Querem saber o que diziam os e-mails?

Aí é que está! Não vou ocupar o precioso tempo de todos vocês reproduzindo ofensas e desinteligências de toda sorte contra este que vos escreve. Só pra resumir, dizem que eu não tenho pegada (escreveram “punch”), que eu tento me aproveitar da Net pra divulgar inverdades, que eu deveria ser preso, pois sou pior que um “hacker”, etc., etc.

O estilo? Bem… O estilo não lembrava nem um pouco Otaviano ou qualquer um de seus amigos. A última das mensagens jogou alguma luz sobre o mistério dos e-mails ameaçadores. Dizia literalmente:

“Porco, machista!

Herói de vilões!

Ou vira feminista

ou arrancamos teus culhões!”

O e-mail tinha sido despachado de uma lan-house de péssima reputação e ainda por cima as palavras tinham sido recortadas de links de vários sites.

Sabe de quem eu lembrei? Não, claro que não tem nada a ver com Fátima, nem pense nisso… Não é o estilo da menina. Lembrei de uma pessoa que anda sumida faz tempo: a universitária que encarou Dr. Leme na sala de aula e depois o denunciou, recordam-se? Não posso acusar sem provas… Por isso peço desculpas e solicito que aguardem o desenrolar dos acontecimentos…

ONZE

Quando terminou de dar as palmadas – merecidas no entender da troupe masculina –, Otaviano mandou a garota se vestir e antes de ir embora com os amigos avisou as mulheres que cercavam Fátima, tentando colocar umas pedrinhas de gelo em seu traseiro vermelho: “De agora em diante quem manda nessa casa sou eu, tão entendendo? Eu e mais ninguém!”

Na calçada, Zé da Pena puxa o delegado pelo braço e alerta: “Otaviano, homem não manda em casa nem quando mora sozinho…”

Jardel cutuca Dr. Leme e sussura: “Tá vendo? Tem horas que o Zé incorpora mesmo o finado escritor e deixa todo mundo de boca aberta. O chefe mais que todos…”

Dr. Leme concorda, diz que a frase poderia muito bem ter sido criada por Nélson Rodrigues. Em seguida, aponta para os dois: “Olha lá, Otaviano tá beijando a mão do genial Peninha”.

DOZE

Cada vez mais e mais mulheres entram no bunker de Fátima e se protegem umas às outras. Veio a negrinha Eunice, mudou-se de mala e cuia a tal universitária, de nome ou apelido Sandra Mara, apareceram dezoito meninas egressas da Febem Ferro na Boneca, atrás delas a tal inspetora que era tida como lésbica de carteirinha. Até a implicante Helenice, amiga da falecida Izilda, transferiu-se com suas inseparáveis acompanhantes. Eram mulheres novas, velhas, bonitas, nem tanto, vingativas, doces e complacentes, tagarelas, entediadas… Tinha de tudo.

Por ordem de Fátima, esticam uma faixa no portão da casa:

“No amorzinho, nunca mais!”

Querem autonomia, liberdade para amar. Não desejam apenas ser amadas. “Chega de servilismo!”, Helenice berra aos quatro cantos.

Dr. Leme leva a novidade à delegacia. Otaviano grita: “Ah… querem autonomia, amor livre? Estão pensando o quê? Querem mudar de posição? Por mim, tudo bem. Podem vir por cima, eu não tenho preconceitos”. Era de fato um porco, machista, adepto do pensamento único.

TREZE

Matias, o cameraman da poderosa rede de TV, líder absoluta de mercado, há muitos anos campeã de audiência, tinha sido promovido a diretor de sabe-se-lá-o-quê. Naquela emissora, diretor era o que não faltava. Em visita à delegacia, puxou o amigo pelo braço e quis saber: “Escuta, que porra é essa? Faz dias que não acontece nada nessa estória.Isso aqui parece um túmulo.”

Otaviano concordou e mandou chamar Zé da Pena, Jardel e Dr. Leme para uma pequena reunião de negócios. Explicou, colocando as duas patas em cima da mesa: “Meu amigo Matias, brilhante cinegrafista e agora diretor de sei-lá-o-quê, tá me perguntando por que não acontece nada há dias na estória. Alguém pode me dar uma explicação?” Os três se entreolharam e o popular Peninha mais uma vez pontificou: “Dizem que o autor anda por aí se arrastando. Parece que é um estado pré-depressivo, uma coisa assim”.

“Frescura!, berrou Otaviano. Vai ver o sacana também tá apaixonado pela putinha!”

Não deu outra.

QUATORZE

Matias aproveitou a visita pra contar ao seu amigo delegado que a estagiária Vanessa Mendes também já tinha se bandeado para o bunker de Fátima. “Aquela que adora te chamar de Tavinho na frente dos outros, sabe qual é, não sabe?”

Claro que Otaviano sabia, mas desconversou: “Amigo Matias, não sei por que, mas tá me dando uma sensação esquisita, uma dor aqui no ombro esquerdo. Ou vai chover ou é bursite.”

Dr. Leme, que nos últimos dias entrava mudo e saía calado, aproveitou a deixa pra cutucar o antigo desafeto: “Bursite?! Tá pensando que qualquer um pode ter bursite hoje em dia?” e caiu na risada. O ex-mendigo arrematou: “No caso do delegado, com todo o respeito, é mais provável que seja uma ‘burseta’, este mal que tanto o aflige.”

Zé da Pena balançava tristemente a cabeça. Dizia com seus botões: “O cara tá se perdendo. Escreve uns troços machistas, apela para baixarias, e ainda quer que as meninas leiam…e gostem. Doce ilusão, doce ilusão”.

QUINZE

Ao chegar em casa de madrugada, o dia quase amanhecendo, Otaviano apoiou-se na mesa da cozinha e se deu conta de que alguma coisa estava errada naquela história. Em seus trinta e tantos anos de polícia nunca passara dias tão tranquilos, sem revolta de presos, sem assédio da imprensa, sem balas perdidas que sempre acham algum inocente útil pelo caminho.

Aí foi um tal de surgir na sua cabeça imagem em cima de imagem, algumas até fora de foco, mas a maioria bem definidas, coloridas ou colorizadas, de um tempo que poderia não ser tão antigo assim, mas que trazia de volta sentimentos que algum coturno lá de dentro andou pisando e o tapete do tempo encobriu.

Como se sabe, Otaviano não era chegado em certos devaneios. Gostava da coisa direta, objetiva, como nas músicas do Falcão: “Homem é homem; menino é menino; macaco é macaco; veado é veado…”.

O diabo é que malgrado a calmaria, a cabeça andava em um turbilhão nunca visto. Tirou os sapatos, deitou no divã da sala e começou a achar que talvez, quem sabe, pode ser que Zé da Pena tivesse uma pequena dose de razão quando dizia, em tom cavo, profundo: “Otaviano, escuta… Você não engana ninguém, tá ouvindo? O apaixonado é sincero até quando mente.”

DEZESSEIS

Quem pensar que tudo não passou de uma recaída isolada de Otaviano – o delegado-tarado-por-Fátima – pode ir tirando o cavalinho da chuva.

Naquela mesma noite Dr. Leme chegou em casa com sinceras saudades de sua negrinha Ju ( o diabo é que se acostumara a chamar a pobre da Eunice de Judith… Daí para Ju foi um pulo ). Meteu a chave no portão, assobiando Madalena, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza, talvez a música não seja da excelente dupla, mas isso não vem ao caso. Abriu a geladeira, encheu um copo com leite, deu o primeiro gole e cuspiu na pia. Tava azedo, porra… Como se não bastasse, sentiu-se ainda mais deprê e abandonado ao ver que a cama em que dormiu permanecia do mesmo jeito, desarrumada, colcha e lençol amarfanhados, o braço do paletó do pijama caído em direção ao chão… tudo igual ao que deixara ao sair de casa. Sentiu-se um pouco morto naquele quarto sombrio, o corpo invisível dentro do pijama.

Dr. Leme era um homem prático, raciocínio objetivo como é próprio dos criminalistas. Não fez biquinho pra chorar, mas dormiu com roupa e tudo. Seu último pensamento naquela noite, em que o vento entrava pelas venezianas, sorrateiro, batia portas e janelas longínquas: “Puta-que-o-pariu… Tudo por culpa de um boquete malacabado.”

DEZESSETE

O ex-mendigo Jardel, por sua vez, livrou-se do interminável plantão com a desculpa de que precisava aguçar os ouvidos, pôr as orelhas em pé, reatar seus vínculos com o mundo dos amaldiçoados informantes. Rumou para o indefectível barzinho na orla, o lugar onde Fátima se sentara pela primeira e única vez no colo de Dr. Leme.

Lá chegando, como quem não quer nada, ensaiou o seu pedidozinho de “ajuda simbólica”. Levou uma vaia daquelas. O dono saiu detrás do balcão e não se conteve: “Tu não tens vergonha, ó pá? Todos estão a sabeire que tu és um rapa…!” Era português, o infeliz. Tocou Jardel com um certo rancor, próprio dos benfeitores iludidos.

O ex-mendigo sentou-se em um banco no outro lado da avenida; ficou olhando o mar e suas marolas assimétricas. Não chorou, não se lamentou, não disse nada, nem a si mesmo. Apenas o mundo parecia cada vez mais longe, as palavras incompreensíveis, distantes todas as vozes.

Quando se levantou, seu pensamento foi: “Preciso dar uma mijada, antes que seja tarde…”

DEZOITO

O problema todo, a questão intelectual, ficara mais uma vez com Zé da Pena, o popular Peninha.

Aproveitando a ausência do temível Otaviano, depositou o esqueleto na cadeira reclinável do delegado, acendeu uma cigarrilha e passou o resto da madrugada meditando. Primeiro pensou que precisava urgentemente abandonar aquela vida e se libertar do ódio que sentia por Otaviano e suas frases feitas. Por tabela, também se livraria de Nélson e seus geniais clichês. Mas em seguida teve medo, pavor, de levar um bonde para um distritozinho de quinta categoria, onde assistiria com estupor a violência, a tortura, o desrespeito, tudo isso movido por uma única e preponderante razão, a escassez em tempos de abundância.

Considerou que não raro os problemas da humanidade reduzem-se aos dilemas pessoais. Seu último, e sábio, pensamento, quando o dia amanhecia: “Vou foder aquela garota antes de todos eles…” Mas nessa hora já estava bêbado que nem um porco.

DEZENOVE

Matias, o diretor da poderosa, morava em um pequeno quarto de pensão. Não era uma espelunca propriamente dita, mas não deixava de ser uma porrinha minúscula, malventilada, o banheiro sem janela e uma solidão que não tinha mais tamanho. Só o bairro era bom, quer dizer, diziam que era bom, Matias nunca descobriu por quê.

Naquela noite, a primeira coisa que fez, depois que arrancou as botas e se jogou na cama, foi afastar os maus pensamentos da cabeça. Começou agradecendo a Deus por ter sido em tão pouco tempo promovido a diretor de sabe-se-lá-o-quê. Jurou que nunca iria maldizer o dia em que agradeceu com lágrimas nos olhos àquela abençoada promoção, embora gostasse mesmo de correr segurando uma câmera, no meio desse povo que sabe como ninguém arrumar confusões e maus políticos.

A segunda coisa que o bom Matias fez foi jurar que nunca, nunquinha mesmo, se deixaria enfeitiçar por essa tal de Fátima, uma garota meio sem graça, que ele conhecera na greve da Febem Ferro na Boneca. Dormiu execrando Fátima e todas as meninas do mundo, que não queriam nada com ele.

Seu primeiro pensamento ao despertar: “É hoje que eu como aquela baixinha…”

VINTE

Enquanto isso, no bunker de Fátima, o bicho começa a pegar. Cedo descobrem que o mar não tá pra peixe, portanto é preciso pular cedo da cama pra garantir o almoço de cada dia.

A inspetora que veio da Febem Ferro na Boneca acha que é melhor cada uma sair pelo bairro, batendo de porta em porta, pedindo um serviço de ajudante de pedreiro. Levou uma vaia daquelas.

A repórter da TV achou que era mais fácil ligar para uns amigos que ela conhecia há muitos anos. Só faltou pularem no pescoço dela.

Teve uma que propôs tirar o dinheiro da poupança. Essa foi por todos consolada.

Fátima, por sua vez, disse: “Parem com essas idéias de jerico!!! Vamos todas vestir umas túnicas brancas em cima da pele, sem nada por baixo, e andar pela cidade atrás de donativos.Tal como fazem os monges budistas.Outra coisa, a casa tem uma passagem subterrânea que vai terminar lá no campinho de futebol. Vamos sair e voltar por ela para não assustar as famílias da rua.”

Recebeu uma salva de palmas. E lá se foram elas, de cestinhos de vime em punho, pedindo aqui, aceitando ali…

De tarde, voltaram pra casa sem um puto. A maioria desanimada, carência sem limites, uma vontade louca de chutar o pau da barraca.

Helenice, morta de fome em todos os sentidos, radicalizou: “Pior que não comer é não ser comida. Eu não aguento mais!!!”

Fátima ouviu aquilo e se emputeceu. Olhou Helenice de alto a baixo e mandou legal: “Também, quem é louco pra comer um tribufu desses?”

As duas se descabelaram, rolaram escada abaixo, cada uma tentando enfiar os dedos nos olhos da outra. Bem nessa hora Otaviano chegou no portão. Olhou aquilo e se espantou: “Deram pra isso agora? Se esfregando em público? Suas lésbicas…!”

Foi um pega-pra-capá de corar cafetinas.

VINTE E UM

Logo depois foi Dr. Leme quem chegou no portão, procurando Otaviano e Peninha, pelo menos essa era a desculpa. No bunker de Fátima e suas seguidoras (com raras exceções, é claro), os tapas cediam lugar às farpas e rasteiras. A negrinha Eunice, por exemplo, viu quando Dr. Leme chegou. Acenou para ele lá de cima da varanda. Fátima virou-se pra descobrir quem atraía os olhares do nobre causídico e ainda teve tempo de flagrar Eunice no meio do “tchauzinho”. Na hora não disse nada, mas deve ter atachado um luminoso na testa, piscando sem parar: “ciúme-ciúme-ciúme”. Helenice percebeu e a gargalhada que soltou foi de vitória por knock-out.

Fátima pensou com seus botões, ou melhor, com o zíper da calça jeans: “Essa viada dessa pretinha me paga!!! Tá de olho no homem das outras? Vai ver só uma coisa…” Disse a última frase baixinho e a seguinte aos berros: “Eunice, sua porca! Venha já varrer a passagem secreta! A escada tá imunda, porra!” O “porra” foi saboreado ao máximo, esticando todos os fonemas: “p-o-r-r-a!”

Eunice que não era trouxa nem nada, emendou de primeira: “Agora eu não posso, Fá. Tenho que ir na casa de Lelé passar umas roupinhas, viu como a camisa dele tá amassada,tadinho?”

Dr. Leme examinou a própria camisa com desdém e pensou: “É hoje!!!”. Chegou a esfregar as mãos, sem perceber que estavam todos olhando para ele, o felizardo.

VINTE E DOIS

Eunice e seu amigo Dr. Leme no velho camburão da delegacia, mas não foi preciso porque o advogado estava com seu automóvel estacionado na frente do bunker. Nessa hora já tinham chegado o escrivão Zé da Pena, o diretor Matias, o ex-mendigo Jardel e mais uma pequena multidão que se formou no portão da casa, sem entender o que estava acontecendo.

A negrinha Eunice desceu as escadas da frente do bunker como uma verdadeira dama. Parecia mesmo uma noiva classe “A”, rumo à igreja idem, no dia do casamento. Com seu olho clínico, Matias cutucou Jardel: “Tem classe, tem classe… Deixa as negas de ‘E o Vento Levou’ no chinelo…” Jardel não se conteve: “Viu que bundinha?!”

VINTE E TRÊS

Eunice estava mesmo mudada, irreconhecível até. Talvez tenha sido o convívio com as amigas no bunker, vai saber. Esperou Dr. Leme abrir a porta do carro para dizer polidamente: “Prefiro ir no banco de trás, se não se importa…” Dr. Leme achou a situação meio esquisita, mas resolveu, depois de tanta espera, não arriscar. E lá foi ele de motorista, mesmo.

Zé da Pena, com uma ressaca de quarta-feira de cinzas, olhos rútilos, babando um pouco na gola do paletó, puxou Otaviano pelo braço: “Essa negra vai levar nosso amigo à loucura,à loucura, tá entendendo, Otaviano? Devia fazer alguma coisa, caso contrário vamos ter que resgatá-lo de um hospício.”

Otaviano achou que já estava na hora de mostrar a Zé da Pena que ele não era o único a psicografar o magnífico escritor: “Zé, escuta… Tá ouvindo? O hospício é a única morada digna de um verdadeiro apaixonado.”

O popular Peninha ouviu aquilo e não gostou. Mediu Otaviano dos pés à cabeça e fulminou, com toda a elegância de um bêbado de berço: “Assim o caminho fica livre pro delegado atacar a princesinha, não é, seu canalha?”

VINTE E QUATRO

Eunice bem que estava com saudades daquela casa em que vivera durante longos anos. Só não queria dar muita bandeira, porque conhecia Dr. Leme como ninguém, não fosse ela a mucama predileta, aliás de cama, mesa e banho. Por isso desceu do carro ainda pisando em ovos: “Nossa, como isso aqui está sujo! Vamos ter que chamar uma diarista”, disse, passando o dedo no pó que se acumulava nas grades do portão.

Dr. Leme não era lá um sujeito muito ligado nessas coisas, mas concordou imediatamente, porque não queria ver a sua pequena “Judith” abaixada no chão, esfregando… Ou melhor, até que queria, mas por outros motivos. Perguntou com a voz embargada: “Acha que devemos chamar a diarista hoje?” Eunice respondeu sem olhar para ele: “Mais tarde, mais tarde… Por enquanto eu mesma quero passar umas roupinhas.”

VINTE E CINCO

Como era de se esperar, Eunice logo descobriu que seria impossível passar o que não tinha sido lavado. Deu uma bronca daquelas em Dr. Leme, só faltou chamá-lo de broxa, porque “porco”, “sujo”, “relaxado”, “imundo”, isso ele teve que ouvir caladinho. Vai saber por que os conceitos de asseio e limpeza às vezes fazem tanta diferença entre homens e mulheres.

Parece que depois ficou com uma certa pena. Entregou nas mãos de Dr. Leme uma toalha e um sabonete e disse: “Vá tomar um banho enquanto eu ponho a roupa pra lavar.”

O famoso advogado gostou da idéia. Chegou até a pensar em convocar a negrinha para esfregar as suas costas, mas desistiu do projeto; achou melhor não precipitar os acontecimentos.

VINTE E SEIS

Fátima não ficou propriamente magoada com a traição de Dr. Leme. Ficou foi puta da vida, mesmo. Tanto é que logo depois que Dr. Leme e a negrinha Eunice saíram de carro – ele dirigindo; ela sentada no banco de trás, como uma princesa – Fátima ficou tão fora de si que armou o maior barraco pra cima de Sandra Mara, a aluna de Dr. Leme que denunciou a chupetinha na faculdade, lembram? Pois é, começou dizendo que a tal Sandra Mara tinha arruinado a vida de Dr. Leme, e também a dela, pois foi a partir dali que as coisas começaram a desandar. (Nessa hora, Helenice, atrevida como sempre, virou-se pra Fátima e soltou essa: “Menina, tá pensando que a vida é uma maionese caseira, que desanda por causa dos ovos?”) Conhecendo, como todos conhecem o temperamento da ex-líder da Febem Ferro na Boneca, dá pra imaginar o que aconteceu em seguida, dá ou não dá? – no bom sentido, é claro…

Em resumo, mesmo a contragosto, as mulheres do bunker de Fátima tiveram que chamar Otaviano e sua turma pra separar a briga e aplicar um corretivo na malta.

Fátima encarou Otaviano com aqueles dois olhinhos apertados, pôs as mãos nos quadris e desafiou: “Vai me surrar de novo, vai?”

Mas o delegado foi supercarinhoso com a pobre menina descontrolada. Passou sua mão gorda e seu braço peludo nas costas de Fátima e a levou para o quarto, dizendo baixinho no seu ouvido: “Não vale a pena se aborrecer por tão pouco. Esqueça quem não te merece e vem com o tio, vem…”

Conhecendo, como todos nós conhecemos, a personalidade do velho Otaviano, dá pra imaginar que as coisas estavam duras para o lado da menina Fátima… em todos os sentidos.

VINTE E SETE

Dr. Leme saiu do banheiro só de roupão, se sentindo um “outro homem”. Fátima era apenas uma longínqua lembrança, uma pirralha abusadinha que não chegava aos pés da sua querida Judith, que agora, depois da bronca, estava mais perto do que nunca. Mas para conquistá-la seria necessário usar de toda a lábia e verve jurídica.

Assobiando um pagodezinho despretensioso, a negrinha cuidava da casa com orgulho. Afinal, aquele cantinho era mais seu do que de qualquer outra pessoa, e Dr. Leme, apesar de se comportar como um galináceo de primeira, no fundo não era um mau sujeito, apenas um pouco destrambelhado e vítima de mulheres sem princípios, pensava ela. Assobia daqui, cantarola dali, e de repente, sem mais nem menos, Eunice ouve a voz grossa de Dr. Leme bem perto do seu ouvido, o nariz e os lábios encostando em seus cabelos: “Ju, cadê minhas cuecas… Eu tô pelado…”

Na hora pensou em se virar e aprontar o maior escândalo. Dizer que Dr. Leme era um cínico, um abusado, que não queria nada com ele nem com homem algum, mas tudo que saiu de sua boca foi uma voz trêmula e abafada: “Pára com isso, Lelé… Se comporte, homem.”

Pronto. O sinal estava aberto. Dr. Leme agarrou sua negrinha por trás e passou a mão nos seus peitinhos, esfregou-se nela, abriu o roupão e desabotoou a roupa de Eunice e foi apertando, apertando… Bem, fez todas aquelas coisas que nós já estamos cansados de saber quais são (“cansados”, no sentido figurado, é claro…)

VINTE E OITO

Não deu outra: depois que Dr. Leme traçou sua negrinha Judith – na verdade, a classuda e sensual Eunice –, foi a vez de Otaviano se atirar com furor sobre a menina Fátima. Parecia um Ferrabrás lambendo os beiços, aquele gigante, com trezentos libidinosos quilogramas, sufocando a baixinha e indefesa menina no chão da sala de jantar.

Sorveu, mordiscou, apalpou, beliscou, ameaçou, xingou de tudo que é nome… Lá pelas tantas, depois de muito bufar e arranhar o rosto de Fátima com sua barba por fazer, Otaviano escuta um grito que jura ter saído bem dali, daquela boquinha delicada e aparentemente inofensiva. “O que foi? Gozou, benzinho?”, disse o delegado. Fátima, que nunca teve as famosas papas na língua, mandou na hora: “Porra, Otaviano…! Esse teu cinto tá me machucando…Você não tinha que tirar as calças, não?”

Mais uma vez o cinto de couro preto e fivela dourada entrava na história, ao mesmo tempo unindo e separando o bizarro casalzinho. Um fetiche? Um amuleto? Símbolo da dominação? Vai saber por que diabos aparecem estes objetos nada metafísicos nas horas mais impróprias da vida…

FIM DA SEGUNDA PARTE (Continua)

LIBERDADE É PODER FUGIR NA HORA CERTA

LIBERDADE É PODER FUGIR NA HORA CERTA

O que eu acho? Me pede pra definir com palavras? Difícil, mas vou dizer o que eu penso, tá bom? É que nem mulher, você tem que ir lá e foder com ela, entendeu? Não fica achando que cada um tem a sua porque não é assim que a coisa funciona. Se você não faz o que eu tô te dizendo, quando menos espera vem um outro e crau na sua bela e você vai ficar por aí com essa cara de quem não comeu e não gostou, tá me entendendo? Ahn? Se você é mulher, o que é que faz? Vai lá e mete a mão na cara do filho da puta, só pra não perder o hábito. E lembre-se: mulher não estupra, mas estripa. Homem ou mulher, você só vai saber de verdade o que ela é quando não mais tiver medo de perdê-los. Isso é minha opinião, agora fala você. O que é liberdade?

A gente para o carro só pra ver a paisagem. Lá no fundo tem os morros, um relevo esverdeado, parece desenho de criança, só falta o bondinho do pão-de-açúcar. Nos dois lados da estrada o mato não está muito crescido, não a ponto de invadir a pista. Por um momento, eu tiro os olhos do alto dos morros e lentamente começo a enquadrar o descampado, depois a beira da estrada, até perceber a florzinha vermelha, que nasceu num dos muitos buracos abertos no asfalto pelas rodas dos carros. Eu sei que naquela posição a flor não vai durar muito, nem imagino como sobreviveu até agora. A minha dúvida é se devo ou não arrancá-la. Tenho esse direito por imaginar que em breve ela será estraçalhada? Não sei se você entendeu, mas liberdade pra mim é isso. Pensar antes de agir, mas uma hora você tem que agir, não pode ficar ali a vida inteira pensando se deve ou se não deve arrancar a flor vermelha. Seja livre o quanto antes, porque de repente um caminhão pode passar por cima não só da flor, mas também de você e de sua romântica namorada.

Disseram que você podia ir aonde bem entendesse. Aí te deram um endereço. A tentação era grande: você queria ver se encontrava o que estava procurando, não vem ao caso saber o que era, mas havia um risco. Você, que de bobo não tem nada, resolveu as coisas de outro modo: pagou um mendigo, um desempregado, um desses párias que vivem nas esquinas, deu sua melhor roupa a ele, levou o sujeito de carro até as proximidades do local onde deveria descobrir o que havia naquele endereço, depois ficou no carro, com a boina cobrindo a cabeça, uma boa parte da testa, olhando o sujeito atravessar a rua e tocar a campainha da casa 37, com o envelope vazio na mão esquerda, e aquilo foi o sinal para que de dentro da casa surgissem os outros quatro ou cinco, e agarrassem o cara, arrancassem das mãos dele o envelope, isso foi o que você viu. Estava na hora de dar marcha à ré, fazer uma manobra arriscada naquela ruazinha de subúrbio e desaparecer, antes que descobrissem que “ele” não era você e dentro do envelope não havia nada. Então é isso. Quer um resumo, uma frase única? Olha só o título: Liberdade é poder fugir na hora certa. Pode acrescentar, in “Memórias de um Paranoico Convicto”, um dia, se der tempo, ainda vou escrever. Acelera e esquece o resto.

Adicionar Título

Tem sempre um velho com uma vassoura na mão
e uma mulher com uma criança no colo.
Esse era o tema, o argumento como se diz no cinema, pouco mais do que uma foto.
Mais tarde é que foi evoluindo, evoluindo,
até se transformar no que chamaram de
POEMA VISUAL
onde devia caber uma intervenção no quadro de Matisse em sua última fase azul,
a chamada para um filme cult, B & W, anos sessenta, ou simplesmente o reflexo nos olhos de um cavalo morto.
Nunca admitiram qualquer espécie de fundo musical, o famigerado BG, como dizia o velho dançando com a vassoura.
Um chiado na TV off e o choro ocasional do bebê, isso basta, foi o que ficou subentendido. A outra, o marido da outra, cabeça de mulher, a árvore genealógica de um canguru.
Mistério, sempre o maior de todos, seria descobrir: corpo imanente à alma transcendente?

Falsa Pista Falsa

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A VIDA VIVA

Introdução

Nunca é perdido o tempo em que se ama.

(A vida vista através do para-brisa de um carro, estacionado em local reservado)
Pensei, pensei, pensei…
e concluí:
é hoje que eu dou um jeito no passado,
tão revolto e revoltado,
cheio de sons, sonhos, acordes
e a fúria já esquecida.

 

CAPÍTULO I

Lembre-se do que ela disse:
“Não amo, apenas sinto carinho e admiração por ele.”
Mas uma mulher que sente carinho e admiração por um homem não está a um passo de se apaixonar?
Será? Ou mais uma vez é você, empurrando a si mesmo ladeira abaixo?

CAPÍTULO II

Do mesmo jeito que um homem se interessa por uma mulher que não quer transar com ele, uma mulher também se interessa por um homem que quer transar, mas aceita que ela não queira? É o espelho da vida, com duas imagens diferentes.

CAPÍTULO III

A vida devia ser como um corredor de hotel, com tapete vermelho e várias portas fechadas, que a gente poderia abrir, entrar ou sair quando bem entendesse, para escolher outra porta, e outra, e outra… Ou ficar lá dentro do primeiro quarto para sempre.

RASTROS

Luís Santiago voltou pra casa a pé, economizando pensamentos. O ar gelado invadindo suas vias expressas até os pulmões, nem isso era pra sentir.
Linear: antes, durante, depois, causa, consequência, luz e sombra ou completa escuridão?
Um homem conta para a mulher que almoçou com uma colega de trabalho, de nome Kátia, e que gostou muito de sua sinceridade e inteligência. A mulher olha desconfiada. Quanto mais o homem elogia sua colega Kátia mais a mulher desconfia que alguma coisa deve existir entre os dois e o primeiro pensamento que lhe vem à cabeça, é claro, sim, é o sexo.
O que você olha primeiro, Santiago, o que uma coisa quer dizer ou o que ela não quer dizer?
Existem conclusões extremamente simples, depois de consumado o fato. Este, diz Santiago, é notável exemplo do pensar-linear, o entender em etapas, alguém conclui que não podia amar alguém se já amava outra, ou outro, tanto faz. Fato consumado, conclusão precipitada: não amar tem suas etapas? Conversa fiada. O não saber que ama, talvez…
Sábado passado, naquele restaurante sujo, de um falso grego imundo, mas não por ser grego, isso nunca, na última mesa à direita do corredor, Luís Santiago foi seco e mandou a namorada
passear. Ela foi, secamente, e Luís passou a semana inteira tentando adivinhar se a namorada já estava mesmo a fim de ir ou se aceitara o desafio só pra ver se ele, o pobre e desprezado Santiago, correria atrás dela para se desculpar.
Luís Santiago, a caminho de casa, chega à conclusão: este é mais um fino exemplar do tosco e burocrático pensamento linear, não vou cair nessa, Betty, me desculpe, mas não vou te dispensar.

A mulher conta que almoçou com um colega do trabalho, um sujeito casado, fique tranquilo, meu bem, você sabe que homem casado pra mim é… deixa pra lá. O que eu queria te contar é que esse homem, o nome dele é Luís, Luís não sei de quê, e eu gostei muito da sua sinceridade e inteligência, sem contar que me fez rir o tempo todo, meu bem, quase engasguei com a comida, foi isso, só isso, amor. Quanto mais a mulher elogia o tal Luís, mais o homem desconfia que alguma coisa deve existir entre os dois, e o primeiro pensamento que lhe vem à cabeça é o sexo, é claro, que ainda não aconteceu, sem dúvida, mas alguém duvida que pode acontecer? Provavelmente acontecerá? Cruel, mas é o que se passa naturalmente na cabeça de quem pensa por etapas, só não há solução onde não há problema.
A vida não é uma sucessão de sucessos ou insucessos, Santiago considera. A lógica, quando há, vem depois, mas já estou eu novamente encarcerado nesse antes, durante, depois, não há como me libertar? Suprima o tempo, Santiago, e já não existe Kátia alguma, muito menos esse ou outro Luís, que te fez rir, Betty, minha ex-futura namorada, o almoço foi apenas um lanche  silencioso no balcão do bar do grego, dois pares solitários e a vida sem mistérios, melhor assim?

MATE ESSA AULA

Não conheço passado que não tenha a pretensão de ser professor do presente. Mate essa aula ou você vai andar pra trás.

Cenas Soltas

Fn

Eu lembro de você olhando o rio, sentada na pedra, vendo a água espumosa passar. Nesse tempo, aquilo não era nada pra nós dois. Não devia ser mesmo, pois a única imagem que guardei foi a de seu rosto alegre, impresso nas águas que o rio levava sem descanso. Aqui cabe um parêntese, uma pincelada a mais se for caso: o rosto era alegre, não deixava de ser, mas sempre que percebias alguém te observando, o sorriso ia aos poucos se desfazendo e teus lábios finos cerravam-se para dar lugar a uma certa amargura. Talvez cerrasse os lábios para não deixar escapar a amargura lá de dentro. Nunca entendi, dizia eu, não há o que entender, disse você, numa única e definitiva resposta.
Não sei se foi nessa época, ou alguns anos depois, mas de repente você passou a não comentar as coisas simples. A que horas acordou, já tomou seu café com leite, pretende sair apesar das nuvens negras? Andava solta, desgarrada, seus pés mal tocavam o chão enlameado. A chuva caía sem cessar nas tardes de verão. Longos raios iluminavam o celeiro, o vento abria portas e escancarava janelas, desnudando almas temerosas. É perda de tempo descrever com palavras o que nos rasga a pele e fere os olhos, você dizia. Capte o que há de novo no horizonte, além da cordilheira azulada. Talvez tenha eu até certo ponto acreditado, pois desde então passei a esmiuçar os intentos, seus e de quem você esmiuçava, a destravar um simples olhar que parecia a mim destinado, para ver se não seria mais uma vã tentativa de dissecar esse mundo tão solene. Em que momento o riso testemunha alegria ou desprezo, sem sair de seu rosto? Coisa sem importância, no seu calar enigmático. Um não-julgar acima de tudo.
Foi contigo que aprendi que uma ideia não se engrandece ao desmerecer sua oponente. Ao contrário, só é forte aquela que consegue se afirmar em presença de opositoras igualmente respeitáveis.
Não sei se a liberdade era o que tanto procuravas, talvez mais a ideia dela, como a ideia de todas as coisas. Para elas é que muitos acreditam viver.
Um dia, não faz muito tempo, me escreveste para lembrar que não há tristeza em caminhos que se bifurcam, um voo não se mede em distâncias, mas sim pelas asas que sonhamos ter, guardei com carinho essa lembrança, ao lado do teu rosto acompanhando o rio, vendo passar a água que se foi.

Para quem anda sem tempo.

A vida não é só esse esperar por si mesma,
esse aguardar que desabrochem camélias e rosinhas,
ou que apodreçam nos galhos sedutoras goiabas bichadas.
Isso, que vem a ser futuro, não passa de uma ideia, para sempre empacotada, pronta-entrega, na cabeça dos humanos. Cachorro não tem futuro; pedreira também não. Mas os dois futuros, de animais e coisas, estão lá, não se sabe bem pra quê, dentro das nossas cabeças.
Mas… En garde! Não é qualquer presente, lúcido e festejado,
que irá se contrapor ao delírio deste eterno preparar-se
para a vida que se forma.
Quanto ao passado?
Esfarrape-o. Trucide as esperanças em tê-lo de volta, mesmo que não tenha sido do jeito que imaginava.
Pode lembrar do que foi bom, deve até, de preferência com moderação.
Se quiser, também pode cotejar, passado e presente, um contra o outro, vis a vis. Só não se atreva a escolher qualquer um dos dois. Ninguém o chamou aqui para JULGAR-SE.
A vida fará isso, quando as tais camélias e rosinhas, para ser otimista, desabrocharem.

A PASSAGEIRA *

Fn

Não lhe incomoda pensar que talvez nunca mais encontre uma pessoa que nem chegou a conhecer? (Olhos vivos, semblante indagativo, silêncio). Dito assim de repente, por alguém que você acha que nem a conhece, parece uma daquelas cantadas, que você deve ouvir às dezenas todos os dias. (Olhos baixos, semblante neutro, silêncio). Mas eu posso lhe assegurar que não se trata de nada disso. Não é uma cantada, não que você não a mereça. (Olhos baixos, leve sorriso, quase imperceptível, silêncio). O fato é que você não me conhece, mas eu a observo há muito tempo, sei onde você mora, sei que ônibus pega, que horas vai e que horas volta do trabalho, sei quantos anos você tem, sei de cor o nome das suas melhores amigas, sei de quase tudo. (Olhos arregalados, semblante sério, silêncio). Também sei que é casada e que seu marido parece ser muito ciumento. (Olhar de relance, assustado, talvez seja a raiva o que aperta seus lábios, silêncio). Mas não se preocupe, Marcela, foi ele mesmo, seu marido Osmar, quem me mandou vigiar você, não tanto por ciúmes, mas por outras razões que ainda hoje você irá entender. (Lábios semiabertos, desses que iam dizer algo surpreendente, mas que desistem e voltam a se fechar franzidos, silêncio). Continue assim, em silêncio, é melhor para nós dois. Vou resumir em poucas palavras o que você ainda nem desconfia: quando seu marido Osmar me propôs esse trabalho, nem me passou pela cabeça que ele estava coberto de razões para duvidar da sua pessoa, não que isso seja de alguma forma uma acusação, não é, e você logo saberá por quê. No início, fiquei surpreso, é claro. Como é que você, uma menina de família tradicional, com esse olhar tão meigo… (Olhos de ódio na direção do interlocutor, baixam em seguida. Silêncio). Não responda, eu lhe peço, nem sinta raiva de mim por enquanto, voltando ao assunto, certamente não foi por necessidade material que você fez o que fez, eu sei que não, também não foi por se sentir sozinha e abandonada, Osmar me garantiu que você nunca se queixou (Um sorrisinho cínico, talvez de desprezo, agora é explícito e modela seus lábios, silêncio). Também não quero que você me explique coisa alguma, o que aconteceu entre vocês não me diz respeito, no entanto, sei que você deve estar se perguntando por que eu não me aproximei antes e só agora lhe conto toda a verdade, o fato, querida Marcela, é que a realidade muda, muda muito, sem parar… (Ar de um certo enfado, suspiro quase imperceptível, silêncio). Assim como você se pergunta interiormente por que até agora não lhe contei nada, também pode se indagar por que sua amiga Silvinha também nada lhe disse. (Sobressalto, chega a abrir a boca de tão espantada, parece que vai dizer algo, mas: silêncio). Sim, Marcela, conversei com Silvinha, mas também a pedido de seu marido Osmar, queria ele saber alguns detalhes da sincera amizade que uma dedica à outra, sabe como é, neuroses, Marcela, neuroses… Compreendo que você fique de certa forma indignada com o silêncio de Sílvia, que vem a ser sua melhor amiga desde a infância das duas em Curvelo, não é mesmo? Poderia esclarecer esta questão, pois já possuo elementos para isso, no entanto, Marcelinha, permite-me mais essa intimidade?, no entanto, dizia eu, prefiro pular esta parte, mais tarde poderemos voltar a ela, se for do seu interesse. (Movimentos dos ombros, como a demonstrar um falso desinteresse, um “tanto faz” nada sincero, silêncio). Marcela, Marcela… vamos, finalmente, ao que importa: sei de tudo o que você vem fazendo, sei com quem você saiu, em que datas, em quais circunstâncias. Guardei para mim mesmo este segredo infame, traindo assim a confiança de quem me contratou. Como já disse, Marcela, não consigo entender a razão de seu comportamento, mas o fato é que, talvez por isso mesmo, eu tenha me interessado tanto por você, com tanta intensidade, que hoje posso, sem medo de errar, confessar que me apaixonei pela sua pessoa, uma pessoa inquieta, infiel, que adora se arriscar e, até poderia dizer, nada teme. Acertei, Marcela? (Sorriso, olhos frios, cabeça balançando levemente para, talvez, concordar, silêncio). Teria eu me apaixonado porque pertencemos ao mesmo mundo? Um mundo de traições, indignidades, safadezas, enfim? Você não serve para Osmar; Osmar não serve para você. Por que, Marcela? Osmar tem outra família, quando me contratou para descobrir algum deslize da sua parte, a intenção dele era obter argumentos para o divórcio. Provando a sua infidelidade, Osmar calaria de antemão a boca de parentes, amigos, inimigos, colegas, vizinhos, enfim, quem quer que tivesse a ousadia de censurá-lo. Vocês não têm filhos, Osmar tem com essa outra mulher, Marcela: três (Olhos arregalados, expressão de completo e absoluto estupor, garganta engole em seco, silêncio). Aí é que está, minha linda Marcela, a pergunta que devemos fazer é uma só: quem estava enganando quem? Sei que você me agradece por não ter contado suas aventuras amorosas a meu cliente Osmar, vejo pelo brilho de seus olhos que você é mais do que grata a mim, Marcela, e isso me comove além da conta. (Olhar doce e sereno, um leve sorriso nos lábios entreabertos, silêncio). Contudo, por mais que me sinta atraído e tentado a me aproximar de você, agora que sei de tudo, sinto-me impedido, não conseguiria me relacionar com uma mulher que durante tanto tempo enganou um marido que julgava a fidelidade em pessoa, não vem ao caso se este seu julgamento expressava ou não a verdade dos fatos. Vamos, agora chegou a sua vez, fale alguma coisa, Marcela querida, me diga o que acha de tudo isso, revelado assim tão de repente… (Os olhos piscam repetidas vezes, parece que vai responder, mas o ônibus chega e Marcela parte, sem olhar pra trás. Silêncio). Eu fico parado, como um poste, imaginando se meu ônibus ainda vai demorar. Não diga nada, Marcela.

  • Alguns leitores perguntam como interpretar os textos entre parênteses. De que modo o personagem consegue “dialogar” com Marcela e interpretar suas reações. Tudo que eu posso dizer é que tem dias que a gente acorda conversando com a própria cabeça. Acontece comigo, talvez aconteça com você também, até no ponto do ônibus…

Minha vó e meu falecido cachorro

Acordei de madrugada, abri a porta que dava para o quintal. Tinha nuvens no céu, algumas negras sombreavam o canteiro que a vó regava todas as manhãs. Quando as nuvens deixavam a lua aparecer o que se via era a nossa horta, raquítica, desbotada, com salsinhas, hortelãs, sálvias, manjeronas… todas ervas velhas e curvadas, como o homem que dorme no quarto da vó, e que de mim não é nada.   Desci os degraus da escadinha de madeira e levei uma chicotada na cara: era o vento que empurrava as nuvens e anunciava o inverno. A casinha é um pouco longe e eu me arrependi de não ter me enrolado na manta de lã. Tava cheia de furos, mas era melhor do que a roupa do corpo, que também andava mais pra lá do que pra cá.
Passou uns minutos e pela janelinha do banheiro entrou uma voz de gringo, rascante: “Ei, já matei teu cachorro! Agora vou matar você, sua irmã, sua vó e aquele outro cachorro que é o macho dela”. Disse isso e deixou na porta da casinha uma bandeja prateada, com a cabeça e o rabo de negro jim, que ainda não tinha latido – agora eu sabia por quê.

O gringo soltou uma gargalhada medonha. Eu não tinha coragem de me mexer, nem para enxugar os olhos ou assoar o nariz. Ainda havia sinais de sangue quente nas extremidades, sangue vermelho escuro em coágulos nas partes decepadas. Os olhos de jim eram doces como sempre e se dependesse dele, ali mesmo, naquele banheiro minúsculo, seu rabo esquartejado voltaria a balançar para o amigo de muitas caçadas.
Fiquei um tempo esperando o gringo cumprir suas ameaças. Mas logo percebi que ele já estava longe. Não iria mesmo descarregar toda sua maldade em uma única noite, com o inverno mal começando. Juntei os restos de negro jim e cavei com a pazinha de jardineiro uma pequena cova. Coloquei sobre o lugar dois palitos de picolé em forma de cruz. Depois achei que aquilo poderia ser uma heresia, porque jim era um grande amigo, mas a vó me disse um dia que só os cristãos merecem uma cruz na sepultura. E eu não estava a fim de arrumar mais encrencas do que já tinha.
Não contei nada a ninguém. Dois dias depois, quando a irmã perguntou por jim, eu disse a ela que o pobre cachorro passou mal, pôs os bofes pela boca depois de comer o veneno de formiga que o sujeito que dormia no quarto da vó tinha colocado. Ela balançou a cabeça e resmungou algo mais ou menos assim: “Mais uma desse filho da….”, mas não chegou a concluir porque era uma moça educada e de respeito, a irmã.   Passei a semana tentando descobrir de quem era a voz de gringo. Sondei a vó e pedi que ela perguntasse ao sujeito que dormia em seu quarto. Ela quis saber o porquê do meu interesse e eu tive que inventar uma história, contei que tinha ouvido no armazém um comentário sobre o tal gringo que queria acabar com a raça de todo mundo aqui em casa. A vó não disse nada, mas olhou de um jeito que falava mais que as palavras que não saíram da sua boca.

O tempo foi passando e eu até já tinha esquecido de toda aquela história, embora ainda sentisse muito a falta de negro jim e suas patas enlameadas. O inverno começou chuvoso. Ventava muito e nossa casa perdeu algumas telhas. O sujeito que dormia no quarto da vó falava que ia arrumar, mas no dia seguinte esquecia a promessa e as goteiras continuavam pingando, bem em cima da minha cama.
Foi numa dessas madrugadas geladas que eu acordei com uma gritaria dentro de casa. A voz da irmã era a mais alta de todas. Parece que discutia com a vó e com o tal cara. Tinha também alguém soluçando baixinho. Quando me viram na sala, todos se calaram. Mas eu percebi  que a vó e a irmã choravam, enquanto o sujeito devia estar rindo por dentro.          No dia seguinte de manhã me mandaram para a casa de uns parentes que moram no outro lado do rio. Fiquei por ali pescando e olhando em volta, pra ver se o gringo não aparecia de repente com um punhal pra me atacar; ele ou o falso arrumador de telhados, que também não valia nada. Me trataram muito bem naquela casa. Disseram que iam ver um cachorro pra mim e que era pra eu esquecer de uma vez a confusão que os mais velhos aprontaram. Quando voltei, a irmã não estava mais em casa; nem ela nem o sujeito que antes dormia no quarto da vó. Perguntei o que tinha acontecido e a vó me disse que a irmã tinha se metido com um tipo de gente que não valia nada. Quase perguntei se ela estava se referindo ao gringo ou ao sujeito que antes dormia em seu quarto. Mas eu sabia que a resposta ia ser: “Você ainda é muito criança pra entender certas coisas”. No meu quarto não tinha mais goteiras. A chuva batia forte nas telhas e enxaguava as janelas. O vento zumbia nos fios de luz, mas eu conseguia ouvir direitinho os soluços da vó em seu quarto.

No dia seguinte de manhãzinha, sentado no primeiro degrau da escada, segurando uma xícara de café e um pedaço de bolo, lembrei que minha falecida mãe um dia perguntou: “Quando será que vamos ter paz em nossa família?” Repeti isso para a vó, mais para quebrar o silêncio que martelava a minha cabeça oca.
Ela me olhou com tristeza e respondeu: “A paz que você procura só Deus vai lhe dar um dia. É a eternidade”. E eu lembrei de negro jim, com seus olhos tristes e seu rabo querendo abanar mesmo depois de cortado. Na hora me veio uma certa desconfiança do que disse a vó, porque o pobre do jim nunca procurou paz alguma, muito menos aquela eternidade que não foi Deus quem deu a ele.

Três Lentes

fn

O sujeito para, acende um cigarro, lê mais um pouco, um parágrafo ou dois. Que importância tem isso, você me pergunta. Olha-me com aquele olhar que eu posso traduzir em palavras, suas palavras, essa é apenas mais uma história que você está escrevendo, só que dessa vez me coloca no meio dela. Digo, se não digo, penso, que a sua técnica é ultrapassada, novo seria você não colocar ponto nem vírgula nem ponto e virgula dois pontos escrever como se vomitasse palavras uma atrás da outra talvez se for do seu interesse junte todos os sinais e os agrupe no rodapé ou num canto da página assim ó … ,,,, ???? ;;; :::: !!! e as pessoas que peguem e usem como bem entenderem. No entanto, apesar da confusão que tudo isso iria provocar, ela acha que eu devo dizer que há mais gente nesse curto espaço, caso contrário ninguém vai perceber o que está acontecendo e eu respondo que se for para escrever e ao mesmo tempo enviar uma bula explicativa prefiro não escrever coisa alguma, ela sorri, bate as cinzas do meu cigarro enquanto considera que estou sendo muito radical mas enfim a decisão é sua, ela diz. Se me perguntasse o que eu desejaria agora, diria que agora desejaria ter um mar para olhar, simplesmente isso, mas acontece que ela nada me perguntou. A pequena Tsuy abre afinal sua boquinha para revelar que narrativas não devem ser lineares, nem ao menos sequenciais, e que é por isso que as memórias nos chegam de lugares e momentos imprevisíveis, e quanto mais tentamos nos apegar a elas, para que não nos escapem por entre os dedos, na trama invisível que é a vida, mais depressa elas nos fogem, esmaecendo lentamente conforme a manhã vai se abrindo. Penso em completar, conforme a manhã vai se abrindo como um rouxinol, que é mais nome de flor do que de pássaro. Tsuy diz que é por isso que revela a seu amante que deu folga à criadagem, para ter com ele uma tarde inesquecível, não sem antes lembrar de suas mãos apertando-lhe a garganta, primeiro com doçura, depois com determinação ou veemência, mas não com raiva, isso nunca, aperta até vê-lo sufocar, para só então devorar suas partes, devorar não seria bem o termo, muito grotesco, diz ela, melhor sugerir algo como saborear suas partes, apesar da indefinição resultante: “Saborear no sentido de comer? Comer em que sentido?” Uma hora teremos que responder, se existe ou não um tempo delimitado, bem definido nos sonhos que todos sonhamos, ou no espaço onírico, como diriam os pesquisadores. Não me refiro à memória, nem ao menos à memória dos alucinados, refiro-me ao sonho em si, que perturba e enternece os que dormem, aquele sonho que inunda o quarto de estrelas, o mesmo quarto que um pouco antes abrigava o oceano onde boiávamos, nós e a cama encharcada de suor. Uma voz feminina, nasalada por efeitos sonoros do rádio ou da TV, diz que não se considera plágio o ato de olhar para uma fotografia e descrever em detalhes o conjunto de emoções que o fotógrafo logrou captar. Não será plágio alavancar as próprias idéias com as cores e formas que alguém se encarregou de reunir para você? Tsuy não sabe o que responder, está olhando seu rosto com atenção desmedida, talvez se comparando a você, eu penso que toda mulher se compara a uma outra, você me diz que Tsuy é incomparável, eu que deveria me comparar ao tal amante que ela estrangulou, embora ninguém saiba ainda se o cara morreu de verdade, verdade? que verdade? Eu e você, eu sou uma, você é outra. E Tsuy, você me pergunta. Tsuy é uma personagem, não deixa de ser real, mas é uma personagem, não sei se podemos chamá-la de verdade. O amante, então nem se fala, você não concorda, eu argumento, pois é Tsuy quem está falando dele, se nem Tsuy é verdadeira por assim dizer, que dirá seu amante, talvez imaginário, talvez morto, estrangulado na tarde em que Tsuy deu folga à criadagem. Tsuy está olhando para nós dois com a boca aberta, quem sabe está com fome ou querendo falar alguma coisa. Penso em oferecer um sushi ou um sashimi, mas você me interpela, diz que esse tipo de brincadeira pode ser ofensivo, embora eu jure de pés juntos que não foi intenção, eu mesmo adoro sushis, sashimis, sukiakis, Tsuy, enfim, grita, chega, queria falar, não queria comer. Eu a incentivo, mas nem era preciso, Tsuy conta que matou de verdade seu amante, narra em detalhes o dia em que foi por ele violentada. Eu revelo que talvez Tsuy esteja brincando ou testando a nossa perspicácia, pois registrei um certo sorriso malicioso no belo rosto da jovem Tsuy enquanto ela contava como foi o estupro, no quarto dos fundos da casa de seu futuro amante. Você me acusa de brincar com os sentimentos de Tsuy, porque não sei o peso que tem um estupro para uma mulher, eu respondo que sim, ou melhor, que não, que não sei mesmo o peso que isso pode ter na cabeça de Tsuy, por isso estranhei o sorriso. Você me olha com uma certa desconfiança, eu pergunto o que foi, você diz que não foi nada, esqueça, mas eu insisto e você acaba por revelar que talvez eu não queira que o tal amante tenha tido uma existência real para Tsuy, eu não entendo onde você quer chegar, mas logo me esclarece, talvez você esteja apaixonado pela linda Tsuy e a prefere virgem, essas coisas de homem ciumento, eu digo que bobagem, mas por dentro penso que você deve ter um pingo de razão. Tsuy às vezes pode, às vezes não pode ouvir o que falamos. Foi isso que combinamos e ela teve de aceitar, é claro. Enquanto está de boca aberta ou semicerrada, como está agora, não ouve nada. Seus movimentos são graciosos, de uma inacreditável leveza. Passeia por sua casa, limpa ao extremo, abre portas, examina os cômodos, para diante de algumas fotografias coladas na parede, com a curiosidade de quem visita uma exposição pela primeira vez na vida. Você quer apostar comigo que Tsuy está pensando no amante que ela mesma matou e que vai voltar a falar dele assim que deixarmos, eu respondo que você está dizendo isso só pra me provocar, porque acha que sou louco o bastante para me apaixonar perdidamente por algo que nós criamos, um brinquedinho que era pra ser inocente. Tsuy retoma a história do amante, você sorri e eu dou graças a deus por não ter apostado merda nenhuma, é assim mesmo que eu falo, graças a deus que não apostei merda nenhuma, você me responde que eu fique tranquilo pois não estava pensando em me cobrar. Tsuy desabotoa a sua blusa branca e de seus pensamentos brota o amante morto. Se convenceu agora, você me pergunta, mas não me resta mais nada a fazer a não ser ficar em silêncio e observar Tsuy amando com todos os seus lábios e mãos e peles o homem de quem ela mesma se encarregara de tirar a vida, se é que assim pode-se chamar a louca paixão, criada por uma personagem fictícia, à revelia de seus autores. Parece não se importar minimamente com tais formalidades, pois esfrega seu corpo agora nu no corpo do homem que pensa possuir, chama-o de Bill, diz nos seus ouvidos palavras doces e apaixonadas, Bill, ela diz, me ame daquele jeito todo seu, com sofreguidão e ternura, como só você sabe fazer. Eu penso que se era tão bom por que tinha de matá-lo, talvez por isso mesmo, você me devolve. Me excita ver que o amante Bill responde aos pedidos da bela Tsuy, tento fazer o mesmo com você, abraço seu corpo, beijo seu rosto, você corresponde, parece, até que, distraídos, ouvimos Tsuy chorar e maldizer a própria existência, levanta suas mãozinhas para cima, com o dois punhos cerrados e reclama que nós não a deixamos viver de verdade, que não temos a menor consideração pelo ser que diz que é. Só então percebemos que, embora Tsuy ainda esteja nua e sedenta, seu amante Bill evaporou, sumiu deixando no chão da sala as peças de roupa que Tsuy tenta agora recolher, enquanto chora, e chora cada vez mais. O sujeito acende mais um cigarro, amassa as folhas de papel e atira-nos a todos na lixeira de plástico negro e brilhante, eu, você, Tsuy e seu amante, como se soubesse que dali pra frente só restaria a vida mil vezes retomada, para sempre repetida.

 

Limão sem suco.

O sentido da vida é a própria vida, esse tanque metafísico em que mergulhamos o real e a fantasia, o verdadeiro e o falso, essência e aparência, tempo e espaço… Tal como os tanques comuns das lavanderias este também tem um ralo. Depois que retiram a tampa e pelo ralo escorre tudo que lá estava submerso, o que sobra é o tanque vazio, que não faz sentido algum. Aí é que vem aquela história do som e da fúria, do conto mal contado por um idiota. Pode espremer se quiser.

Orange Tango

Cansado de não sentir falta de nada
começou a destruir asteroides.
Não satisfeito, passou a pequenos cometas
e
irritou-se ao saber que humanos diziam
cometas também são asteroides.
Enfurecido, pulou de “galho em galho”
à procura de algo realmente essencial.
Até que chegou a seus ouvidos o conselho:
“Ao invés de destruir, regenere;
em vez de subtrair, some-os”
era o tempo da autoajuda,
vendida por motoristas de táxi.
Seguiu à risca:
refez raios, explosões, raivas, gargalhadas.
Arrancou pernas mecânicas,
em seu lugar fez renascer as verdadeiras,
aquelas que doem e incham com o passar do tempo.
(Ingratos protestam: “Quero a minha prótese de volta”)
Amontoou tristezas,
falsas ou mais ou menos verdadeiras,
apagou-as em bloco e não pôs nada em seu lugar,
mas só para ver se tristeza faz falta a alguém.
Nada.
Nem um pingo de saudade.
Cansou de sentir, enfim,
que não sentia falta de nada
e
apertou o botão:
Você Tem Certeza Que Deseja Reiniciar O
Big Bang?,
não sem antes ouvir alguém soprar em seus ouvidos
“Acho que está faltando alguma coisa,
vai musicar?”

Dicionário Marciano

VOCÁBULO BEIJO: Substantivo comum, masculino. Originalmente, ato de encostar os lábios no rosto de alguém, acompanhado ou não por um estalido seco. Quando existe proximidade e/ou intimidade entre duas pessoas que se beijam, encostam-se os lábios também na boca. Neste caso, se for um beijo apaixonado e consentido, as línguas poderão, eventualmente, se tocar, havendo a transferência de saliva de uma cavidade para outra. O beijo possui vários significados. O “beijo de boa noite”, por exemplo, ao contrário do que indica o próprio nome, não quer dizer que dará início a uma noite verdadeiramente boa. Há também o “beijo da morte”, geralmente aplicado por um homem em outro homem, e comumente usado para selar o destino de um mafioso. Os gramáticos modernos consideram que o significado do vocábulo “beijo” vem sendo ampliado, em obediência à modificação dos costumes, chegando-se ao extremo de classificar como “beijo” a  felação e a cunilíngua. Portanto, deve-se considerar como pertinente a este exemplo o pedido que alguns homens fazem às mulheres: “Posso beijar você toda?” O verbo beijar, no entender de alguns, está sendo empregado de maneira eufemística, pois esconde o verdadeiro significado do pedido, que seria “chupar” ou “lamber”, atribuídos à linguagem chula. (pedidos do tipo: “Posso lamber, ou chupar, você toda?” não raro são acompanhados por uma reação bem diferente do beijo, que vem a ser o tapa na cara). Convém ressaltar que neste caso não há reciprocidade, uma vez que as mulheres não se sentem obrigadas a pedir permissão para iniciar suas atividades orais, sendo elas sempre bem-vindas. O beijo é dos cumprimentos mais antigos da humanidade, havendo cientistas que o identifiquem também em outras espécies, tais como o macaco, o cachorro e o bode, variando-se apenas o local onde ele é aplicado. A expressão “Dois bicudos não se beijam” atesta que, por exemplo, dois tucanos não devem coabitar o mesmo ninho, exceto em períodos eleitorais. Finalmente, não podemos esquecer de outro vocábulo, intimamente ligado ao beijo: o abraço, que consiste na junção dos corpos. Duas pessoas podem se beijar sem se abraçar ou se abraçar sem se beijar, contudo, quando se abraçam e se beijam algo mais pode estar por acontecer. Cumpre ressaltar que o beijo só pode ser dado por duas pessoas de cada vez, ao passo que um abraço pode envolver três ou mais humanos, sendo neste caso interpretado como simples comemoração ou uma autêntica “suruba”. Para maiores informações, favor consultar os vocábulos Amizade, Namoro, Saudade e Cópula.

Alguém aí já assistiu ao filme “Mais Um Bandido Na Presidência”? Eu só queria saber o final.

In Twitter @atebrreve (4/5/20)

ALGUÉM BATE À PORTA

Nos dias de hoje a vida é tão surpreendente que chega a desafiar a imaginação de pessoas que inventam estórias, como essa em que estamos metidos, eu, você, Tsuy e o próprio sujeito que se diz autor. Tanto é assim que enquanto ficamos aqui em nossas idas e vindas, à espera de que ele tome afinal uma decisão qualquer, eis que pancadas na porta despertam-nos a todos. O sujeito deu um verdadeiro salto da cadeira, como se tivesse escutado algo do tipo abra imediatamente, é a polícia! Não era, mas quase. O pai do nosso pai, se é que podemos chamar o indivíduo de “nosso pai”, entrou e foi direto ao assunto, perguntando o que você fez nas últimas 24 ou 48 horas, Dieguito? Isso sem perceber que, dificilmente no estado em que o sujeito estava, qualquer coisa que dissesse não ia passar de desculpa esfarrapada para a longa noite de completo desvario. O sujeito, o indivíduo, que, agora sabemos, chamava-se Dieguito, com uma boa dose de surpreendente razão quis saber que história é essa? Por que a pergunta nessa altura do campeonato, papa? Enfim, veio a resposta que todos esperávamos, é bom que se lembre e que possa comprovar, como se diz nos filmes, o seu álibi, caso contrário, contrate um advogado para lhe defender de uma séria acusação de …, e resmungou qualquer coisa no ouvido do filho que nós não entendemos, nem, é claro, podíamos perguntar o que era. Logo depois, o senhor Diego, pai de Dieguito nosso pai, disse olhando a tela do monitor em que vivíamos, vai preparando um álibi, essa acusação é séria, e a pena rigorosa, não importa até que ponto o autor estava bêbado. Ai foi a vez de o indivíduo olhar para nós dois, mais na sua direção, quase como a pedir socorro, talvez procurando uma idéia, um testemunho impossível. Mas você, Lu, fez como Tsuy costuma fazer, abriu a boca e uma leve expressão de escárnio tomou conta de seu rosto. Depois me disse baixinho não se atreva a ajudar esse maluco, Arturo. Tem horas que a maldade brota de seus lábios, Lucélia, mas nem por isso deixamos de te desejar, eu e o amante de Tsuy, que te olha lá de baixo abraçado à pequenina.

Dúvidas, as de sempre

O pai voltou, agora sem papas na língua. Disse na frente de todos nós que Dieguito, seu filho, estava sendo acusado de um sequestro. Você abriu aquela sua boca, agora sem sorriso algum. Tsuy permaneceu imóvel, seu amante, bem, este aparecia e desaparecia quando lhe dava na telha. 
Diego pai perguntou a Diego filho se este já arrumara um bom advogado. Dieguito apenas olhava, ora para nós, ora para a janela, por onde entrava o ar azulado da manhã. 
O sequestro, ficamos sabendo, envolvera mais de uma vítima, talvez duas, três ou quatro… Nessa hora você fez uma cara de “quem diria…”, pelo menos foi isso que me passou, ou quem sabe eu mesmo tenha projetado tal espanto em seu rostinho freezado. Me deu vontade de dizer ao sujeito que ele confessasse de uma vez onde estavam aquelas pessoas, a não ser, é claro, no caso de ter dado um fim nelas, coisa que nenhum de nós acreditava. Tsuy fez que se movia em direção à porta de sua pequenina residência, mas o pai de Dieguito moveu-se naquele instante, como uma pedra de xadrez, e isso paralisou a pequenina.  
O motivo para o sequestro? Sim, não havia nenhum, pois Dieguito negava sua autoria. Inveja? Parece que acusavam o sujeito de estar apaixonado pela namorada de um tenente da polícia. Ciúme? Ao que tudo indicava, a moça rejeitou o indivíduo e isso o teria deixado “fora de si”, nas palavras de seu próprio pai. Cobiça? Com certeza, pois Dieguito sabia que a família da jovem pagaria qualquer coisa para libertar a filha. Os motivos ainda estavam sendo arrolados quando a equipe meteu o pé na porta do escritório e levou Dieguito algemado. Seu pai bradava por justiça e talvez por isso tenha levado uma coronhada na testa, que o deixou caído no corredor do minúsculo apartamento. 
Enfim, você se mexeu e eu lhe perguntei o que aquela confusão tinha a ver comigo e com você, Lucélia. Mas tudo o que ouvi foram os passos do amante de Tsuy, entrando na sala, vindo sabe deus de onde, e agarrando a japonesa ali mesmo, na frente de nós dois e de quem mais olhasse para a tela do monitor.  
Mais tarde alguém apagou a luz do escritório e desligou as máquinas. Tive um pesadelo: eu, você, Tsuy e seu amante ficaríamos presos na cabeça do sujeito. Para sempre, como as dúvidas que me atormentam .

Ficou nisso

Tudo começou quando ela criticou meu jeito de descascar  laranjas: “Todo mundo descasca pra fora, você descasca pra dentro”. Eu respondi que minha intenção era apenas comer a laranja, “Tudo o que eu quero é comer, chupar…” Ela pensou um pouco e respondeu: “Você é um cara bem safado, Virgilio”. Aí foi a minha vez de pensar um pouco, com muito cuidado para sorrir o mínimo possível. Ficou nisso.

In Nulo

Cena 1: Luís Santiago chega ao prédio onde mora, o porteiro Ôswald entrega para ele um pacote pequeno. Luís pergunta o que é, o porteiro responde: “não sei, não abri”. Luís quer saber quem enviou o pacote, Ôsvald responde: “sei lá… Quem entregou foi um drone”. Luís nota que o pacote é mole, contém alguma coisa como uma peça de roupa ou outros envelopes, sabe-se lá quantos. Assim que entra em seu apartamento. Luís Santiago senta-se no sofá da sala e abre o pacote. Lá dentro há um bilhete, tipo uma dedicatória: “Da Bety para Santiago, com amor” Santiago fica pensando “que Bety é essa? não conheço Bety nenhuma…” Vamos ao que interessa, além do bilhete, havia no pacote pequeno e mole uma calcinha cor de vinho. “Ah, lembrei dessa cor, disse Santiago um pouco alto, mas que porra de Bety é essa?”
Cena 2: Marcus Aurélio conta que estava escrevendo um conto, talvez virasse uma novelinha no futuro, o título ele já tinha: “Meu marido tem uma amante bi, mas não sabe que eu sei”. Me perguntou o que eu achava, respondi: “Interessante, mas pra título fica meio grande, né não?” Pra resumir a encrenca, disse que estava escrevendo com um pseudônimo. Perguntei qual era, e ele, na maior cara de pau: “Rebeca Guedes”. Porra, Marcus Aurélio, foi por isso que ela te deixou, você nem pediu autorização nem nada, não é? Disse que não e eu acrescentei: “Pelo menos, percebeu que Rebeca Guedes ainda por cima é um cacófato? Caguedes, entendeu?” Não havia entendido até aquele momento. Só me faltou o quê? Mandá-lo à merda, é claro, coisa que não fiz porque tenho sentimentos e não gosto de chutar cachorro morto.
De noite, no Bar do Beco, Luís perguntou a Lola, leitora de íris: “O que você faria se recebesse um envelope com uma calcinha cor de vinho e um bilhete assinado por uma tal de Bety?” Lola não pensou duas vezes: “Ia lá e comia ela de novo. Não é o que a vadia tá querendo, Luisito?” Foi só empatia, isto é, respondeu como se estivesse no meu lugar? Ou ela não criava barreiras do tipo “você é mulher e eu só gosto de homem”?

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Monodiálogos

“Gosta de mim, por quê?”
“Porque você se esconde e mesmo assim dá pra ver como é. Usa a cabeça para criar seus atalhos de caça-palavras. Eu também sou um pouco assim.”
“Mundos paralelos?”
“E La Nave Vá… Meu maior desejo é matar no nascedouro o que quer que venha a se transformar em modismo. Sei que é impossível, mas sempre sonho em colocar o louco e o são, lado a lado, olhando no mesmo espelho, isso depois que todos reconheçam que o absurdo jamais existiu, a não ser como a ilusão da ilusão”
“Se eu disser que entendi a metade, já tá bom?”

APRENDIZ

fn

Acordei pensando em nós dois. Não tenho certeza se você surgiu do sonho ou se me apareceu, com este sorriso que eu amo, de manhã cedinho, cedinho em termos, lá para as oito e meia, quinze para as nove, por aí… Fiquei um tempo lembrando do que a gente conversou ontem à noite, de outras noites e tardes, talvez até de momentos que ainda nem sequer aconteceram.
A analogia é meio forte, mas sei que você vai entender, escuta só:
A primeira putinha que transou comigo era uma menina de seus 19 aninhos, eu devia ter uns quinze, dezesseis. Foi na rua, início da noite que nos encontramos. Ela passou a mão no meu rosto e me elogiou, disse que eu era um cara atraente, bonito, essas coisas que eu nunca acredito, você sabe.
Havia um hotel, naquela rua mesmo, desses bem vagabundos. Subimos. Ela foi lá para o banheiro tirar a roupa e eu tirei a minha na cama, rapidinho, tinha medo de broxar, acho que todo homem sente esse mesmo medo quando é jovem, inexperiente, ainda mais com uma profissional.
Transamos. O medo de broxar ficou na lembrança. Nunca esqueci sua voz ofegante sussurrando no meu ouvido: “Ahh… não posso gozar, não posso gozar.” Claro que não gozou, mas quase.
Na hora não entendi aquilo. Paguei, fui embora. Eram outros tempos, tudo o que a gente pegava era sífilis e gonorreia, mas isso nem me passou pela cabeça. Restou o orgulho de macho realizado e a voz da putinha: “Não posso gozar, não posso gozar.”
Mais tarde. contei para uns amigos mais velhos e experientes. Um deles riu e me disse que puta não pode gozar no início da noite porque vai perder muito de sua capacidade de seduzir futuros fregueses madrugada a dentro. Outro amigo me explicou que puta de verdade passa a noite transando, mas só goza com seu cafetão quando chega em casa. Aí o cafajeste tira o dinheiro dela, bate e enche de prazer.
Essa imagem nunca me saiu da cabeça. Claro que não cheguei a ser cafetão de mulher nenhuma, mas fico louco quando transo e quase na hora de gozar você me pede pra eu te bater. Não é sempre que isso acontece, mas nessa hora sinto como se você fosse de verdade minha putinha querida, que eu amo e faço sofrer, que me atrai, me seduz e comigo pode gozar. Isso só tem a ver com a gente, com mais ninguém.
Um beijo, muito carinho.

CICLO

fn

Cânticos quânticos

tremem as luzes

tanto não dito

emaranhado 

um tufo

o lufo

golfada vã

palavras que o vento sopra

de manhã.


Terra insana

devastada

um sol 

de raios curvos

mira-se na ira

de ódios milenares

em pedras calcárias

transformados.


No fundo?

Não há nada lá no fundo

nem fundo há…

Foge-me o chão

de fendas angulosas

um vômito a mais

e tudo estremece

declara-se interdito

o que se esquece.

Não haverá lembranças

em olhos opacos

nem doces dizeres

em fachadas luminosas.


De agora em diante

é esperar

que a renascença

nos faça rebrotar

nesse verdor

envolto ao nada.

Pura ilusão

enraizada.

Os bons olhos de Tsuy

(Veja o que é possível alcançar com boas intenções)

Quando o sujeito saiu da sala, fui olhar suas anotações: simples curiosidade, queria saber se já estava ali delineado o que o futuro nos reservara. Na hora fiquei em dúvida se era aquilo mesmo que eu entendera, tanto é que chamei você para ler o que eu acabara de concluir e confirmar, ou não, o que ali estava escrito, talvez desde o início da nossa efêmera existência. Você balançou a cabeça tristemente e limitou-se a murmurar um estranho e fatalista estamos nas mãos desse bandido.
Traduzindo em poucas palavras o que lemos, Tsuy, pobrezinha, seria manipulada pelo sujeito, que pretendia chantageá-la para que nos traísse covardemente, logo a nós que a inventamos. Você e eu estaríamos, mais dia, menos dia, envolvidos em algum crime, não éramos os verdadeiros culpados, mas, na mente doentia do sujeito, nunca teríamos como provar nossa inocência sem comprometer alguém que amávamos, e esse alguém, imaginamos, só poderia ser a pequena Tsuy (tudo indicava que o amante seria morto numa emboscada sórdida).
Os minutos voaram e o sujeito voltou ao quarto que havia transformado em escritório. Olhou desconfiado, como se soubesse que as folhas de papel sobre a mesa e a tela do monitor haviam sido por nós defloradas. Foi nessa hora, momento exato, que Tsuy experimentou se comunicar através de seus bons olhos azuis-piscina: “E se matássemos o sujeito, antes que calcasse novamente a caneta no papel ou carimbasse as letrinhas miúdas nessa tela incandescente?”, arguiu Tsuy com um simples olhar. Aí está, disse você, não que não haja crime, mas que seja ele a vítima. Para escapar de um crime, cometeríamos outro da mesma natureza. Sorri por dentro .